You are here

Amarante, uma cidade amiga das abelhas

Edited on

07 October 2019

A cidade de Amarante participa uma vez mais numa rede URBACT, desta vez com o intuito de transferir uma boa prática da cidade de Luibliana

A relação entre a apicultura e Amarante é já histórica e provavelmente terá surgido logo após o aparecimento das primeiras povoações na Serra do Marão. Ainda hoje, nesta maravilhosa montanha, são visíveis as estruturas de proteção dos apiários, designadas silhas. Estas estruturas consistem em grandes vedações pétreas, implantadas nas encostas ou sobre morros de difícil acesso, destinadas a proteger os enxames de abelhas dos principais predadores, que seriam, no passado, o texugo e o urso-pardo.

Há registos de que na zona dos baldios de Ansiães, para além do usufruto dos recursos naturais que a serra lhes proporcionava, como eram o caso da água e da madeira, uma das principais atividades dos habitantes seria a apicultura de onde obtinham cerca de 500 litros de mel por ano.

Esta ligação à história de Amarante seria só por si um ótimo motivo para querermos preservar, valorizar e apostar no setor apícola, mas os motivos para sermos uma das cidades a integrar a rede BeePathNet do programa URBACT não escasseiam aqui. A apicultura continua a ter uma forte expressão no setor agroalimentar em Amarante e municípios vizinhos, com mais de 300 apicultores registados nos municípios de Amarante, Baião, Celorico de Basto e Marco de Canaveses. Por conseguinte, a Apimarão (Associação de Apicultores da Serra do Marão), que é também membro do nosso Grupo URBACT Local (ULG), está a criar um centro de extração de mel, até agora inexistente no concelho de Amarante.

                     Apiário

A abundância de natureza em Amarante torna-a num habitat privilegiado para as abelhas. As serras do Marão e da Aboboreira, pela sua extensão e riqueza em termos de biodiversidade, conferem características completamente diferentes, dependendo do ponto em que nos encontramos “dentro” da mesma serra, e disponibilizam uma vasta diversidade no que à flora diz respeito. A Serra do Marão, por exemplo, oferece ótimas condições para o desenvolvimento da apicultura, possuindo vastas áreas de pastos, maioritariamente compostos de ericáceas, que conferem ao mel uma cor distinta, cheiro e sabor reveladores desta flora melífera regional tão particular. Mesmo no centro da cidade, particularmente nas margens do rio Tâmega, abundam os espaços verdes. Este facto influencia fortemente a presença das abelhas e o seu contributo para o ecossistema.

Boa Prática URBACT e Rede de Transferência BeePathNet

A BeePathNet é uma Rede de Transferência criada a partir da boa prática implementada em Luibliana (Eslovénia). Esta cidade recebeu um prémio de Boas Práticas URBACT, em junho de 2017 e, como tal, é o parceiro líder da rede, agora aberta a cinco novas cidades: Amarante (Portugal), Bydgoszcz (Polónia), Cesena (Itália), Hegyvídek (Hungria) e Nea Propontida (Grécia).

A rede está a trabalhar diferentes temáticas – consciencialização; educação; biodiversidade; turismo e novos produtos - com uma lógica de adaptação à realidade de cada cidade, mediante as suas características, necessidades e/ou potencialidades.

A participação das cidades na BeePathNet permite trabalhar mais a fundo o setor apícola e desmitificar o medo das abelhas; destacar o seu papel fundamental nos ecossistemas é um dos objetivos do projeto e simultaneamente um dos maiores desafios.

Quando falamos em mudar mentalidades, o ideal é procurar reforços, encontrar os embaixadores mais assertivos: as crianças! É neste sentido que uma das apostas da BeePathNet são os programas educativos. Envolver os mais novos e explicar-lhes a importância das abelhas e como podem, com pequenas ações, contribuir para uma convivência mais harmoniosa com os polinizadores é um ponto essencial no trabalho de sensibilização de toda a comunidade.

                       Jogo quantos queres?

A consciência da gravidade das ameaças aos polinizadores, como é o caso da vespa asiática, e consequente discussão e adoção de medidas para combater esta problemática são também constantes no decorrer do projeto, quer em sessões mais focadas nos profissionais que lidam de forma mais direta com estas ameaças, como também em eventos abertos ao público geral para que haja um maior conhecimento do tema por parte de todos os interessados.

A participação de Amarante

A apicultura em Amarante é um facto e o alinhamento dos stakeholders relativamente à importância das abelhas e do seu ecossistema também, mas temos de ir mais longe, temos de envolver toda a população.

A Dolmen, entidade ao serviço do desenvolvimento local e regional, também membro do Grupo URBACT Local (ULG) da BeePathNet, é a maior dinamizadora das sessões de consciencialização, sendo um dos mentores da criação do Grupo Operacional da Vespa Velutina.

A vertente turística do projeto, altamente alinhada com a valorização da abelha e dos produtos apícolas, bem como com a criação de novos produtos, começou também já a ser trabalhada em Amarante. Graças ao envolvimento de empresas de dinamização turística no ULG foi possível desafiá-los a criar experiências apícolas. Como resultado temos produtos turísticos apícolas que vão desde a visita aos apiários e plantas melíferas na Serra do Marão, a piqueniques com produtos derivados do mel, workshops de hidromel e toda a história que envolve estas atividades e produtos.

No trabalho de valorização dos produtos apícolas que já existem – o mel, o pólen, a própolis e o hidromel - a Dolmen tem também um papel muito importante enquanto entidade que promove os produtos locais da região do Douro e Tâmega.

Por outro lado, a BeePathNet dá-nos a possibilidade de conhecer outras realidades e perceber o tipo de produtos que as outras cidades europeias têm e analisar se são oportunidades para o nosso mercado.

Após os dois anos de desenvolvimento do projeto planeamos ter uma rede coesa, com base nos seguintes pressupostos:

  • Trabalho conjunto de todos os apicultores;
  • Discussão sobre as abelhas por parte das escolas, sua proteção e valorização tendo em conta a importância que revestem para a biodiversidade;
  • Constituição de uma rede de turismo apícola, onde é possível visitar o centro interpretativo do mel (Colmeia do Marão), fazer rotas pelos apiários e provar o mel único do Marão;
  • Criação, no futuro, do próprio plano de transferência de Amarante, onde será possível partilhar todas as boas práticas com todas as cidades naquilo que é ser uma cidade “amiga das abelhas”.

Queremos que Amarante seja conhecida como um município apícola, onde as abelhas são felizes porque as pessoas cuidam delas e do meio ambiente, onde o mel e outros produtos da colmeia são usados ​​por todos e onde os apicultores prosperam.

Texto da autoria de Ana Lírio, coordenadora do Grupo Local do projeto BeePathNet

Etiqueta de homepage: Ambiente