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Qual a relação das artes e da cultura com as alterações climáticas?

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13 August 2019

Claire Buckley, Perita Líder URBACT e Diretora de Sustentabilidade Ambiental na Julie’s Bicycle, afirma que é chegado o momento de agirmos.

Em termos gerais, o setor de artes e cultura não é o maior contribuinte para as emissões globais de gases com efeito de estufa. Assim, a pergunta da Rádio Wroclaw: "Qual a relação das artes e da cultura com as alterações climáticas?" aos representantes de Manchester (Reino Unido) e Wrocław (PL), durante um dia de intercâmbio sobre esta questão não constitui uma grande surpresa. É no entanto, uma questão que vale a pena aprofundar e que está no centro de um novo projeto sobre como as artes e a cultura podem liderar ações climáticas nas cidades, financiado pelo programa URBACT da UE.

A atividade humana e a nossa dependência dos combustíveis fósseis estão a mudar o nosso clima, com efeitos cada vez maiores nos sistemas naturais que nos sustentam, na nossa saúde, bem-estar e prosperidade. As alterações climáticas são uma questão sistémica, enraizada nos sistemas económico, social, cultural e de valores globais que permitem o consumo insustentável, a desigualdade e a desconexão com a natureza, razão pela qual políticas, tecnologia e investimento, por si só, não serão suficientes para resolver esta questão. Precisamos de corações, de mentes e de uma mudança nos nossos valores culturais. Nenhum setor está em melhor posição para estabelecer uma ponte entre o que sabemos e o que sentimos e para apoiar uma mudança de valores do que as artes e a cultura. Tal é particularmente relevante quando se trata de cidades, na linha de frente das alterações climáticas, e onde a arte e a cultura ligam os cidadãos às culturas que os definem.

De acordo com a Visão Geral do Desenvolvimento Urbano de 2017 do Banco Mundial, as cidades geram mais de 80% do PIB global e mais de 70% das emissões globais de gases com efeito de estufa. A rápida urbanização (com previsões de 60-70% da população mundial a viver em cidades até 2050), juntamente com os efeitos do clima extremo e do aumento do nível do mar, estão a aumentar a pressão sobre as infraestruturas e os recursos das cidades, agravando desafios como a poluição atmosférica e tendo impacto na saúde e bem-estar das pessoas. A ação urgente e rápida das cidades é crucial se quisermos limitar o aumento da temperatura global.

Enquanto o valor económico e social das artes e da cultura é cada vez mais reconhecido nas cidades, tem existido muito menos reconhecimento de como estes podem contribuir para a criação das cidades sustentáveis do futuro. Contudo, tal está a começar a mudar, como nos mostra, por exemplo, o Manual de Cultura e Alterações Climáticas para Líderes da Cidade (2017) do World Cities Culture Forum.

Manchester é uma cidade que já demonstra o que o setor pode alcançar ao trabalhar em conjunto na adoção de medidas relativas às alterações climáticas e como pode apoiar a estratégia para as alterações climáticas da cidade. A Manchester Arts Sustainability Team (MAST) tornou-se num dos exemplos mais bem-sucedidos da colaboração ambiental não só da cidade mas também do Reino Unido, tendo em 2017 Manchester recebido o título de "Cidade Boas Práticas URBACT" em reconhecimento do trabalho da MAST.

A MAST é uma rede de cerca de 30 organizações artísticas e culturais - de centros de artes comunitárias e espaços culturais emblemáticos a um festival de renome internacional e emissoras nacionais - que trabalham em conjunto para lutar contra as alterações climáticas, contando já com um longo caminho percorrido desde que começou em 2011. De um pequeno grupo que toma medidas práticas, com assistência e financiamento externos, evoluiu para uma rede financiada e administrada para e pelos seus membros, contribuindo ativamente para a estratégia e objetivos para as alterações climáticas da cidade. A MAST permite que os membros se encontrem pessoalmente, partilhem desafios e oportunidades comuns e que se associem diretamente ao que está a acontecer ao nível da cidade. O relatório quinquenal da MAST (2017) conta a sua história, partilha as suas realizações e conhecimentos, bem como uma grande variedade de boas práticas.

A MAST nasceu do desejo da Manchester Cultural Partnership de explorar como as organizações artísticas e culturais poderiam contribuir para a primeira estratégia para as alterações climáticas da cidade - Manchester Que Futuro 2010-2020. O grupo passou a apoiar o desenvolvimento da Estratégia para as Alterações Climáticas de Manchester 2017-2050, inclusive através do Laboratório Climático, administrado pela Agência de Alterações Climáticas de Manchester, de modo a testar diferentes formas de envolver as pessoas da cidade no desenvolvimento de estratégias. A MAST está agora representada no Conselho para as Alterações Climáticas de Manchester, Em 2018, Manchester atualizou o seu compromisso e adotou como objetivo assente na ciência, eliminar totalmente as emissões de carbono até 2038. A MAST é uma das redes pioneiras no desenvolvimento de um roteiro neutro em carbono em consonância com este objetivo e com o Projeto Carbono Neutro 2020-2038 de Manchester.

Para Dave Moutrey, administrador e diretor executivo da HOME Manchester, membro da MAST e Diretor de Cultura do Município de Manchester, não é surpresa que o setor se tenha unido para adotar mediadas no domínio das alterações climáticas e definir a estratégia em matéria de alterações climáticas da cidade. "A cultura está no ADN de Manchester. Entendemos o valor da cultura para o nosso bem-estar, prosperidade e vitalidade como cidade, e o setor das artes e da cultura tem um papel reconhecido a desempenhar para contribuir para todas as prioridades da cidade.”

Como "Cidade Boas Práticas URBACT", Manchester lidera agora uma rede de transferências - C-Change: Arts and Culture Leading Climate Action in Cities - com outras cinco cidades parceiras - Wrocław (PL), Mântua (TI), Gelsenkirchen (DE), Šibenik (HR) e Águeda (PT), com uma população total de 1,6 milhões de pessoas e emissões de gases com efeito de estufa de cerca de 9 milhões de toneladas e que em conjunto, estão a trabalhar para aproveitar e aprender com a experiência de Manchester em matéria de colaboração cultural no domínio do clima.

Tal como Manchester, todas as cidades parceiras - incluindo duas antigas Capitais Europeias da Cultura, quatro Patrimónios Mundiais da UNESCO e uma antiga Capital Nacional da Cultura - têm as artes e a cultura nos seu cerne. Todas reconhecem a contribuição do setor para a vida da cidade, o bem-estar e a prosperidade. Águeda, por exemplo, tem visto nos últimos 10 anos os benefícios económicos e sociais de fomentar a sua vida artística e cultural, através de, entre outros, um programa de arte urbana, o seu festival AgitÁgueda, programas de residência artística e no investimento num novo centro de arte contemporânea.

Todas as cidades já se encontram a sofrer os impactos das alterações climáticas, da subida do nível do mar em Šibenik e inundações em Wroclaw, aos impactos das "ilhas de calor urbano" e de saúde em Mântua, Wrocław e Gelsenkirchen e incêndios florestais em Águeda e Šibenik. A maioria já possui estratégias no domínio das alterações climáticas bem desenvolvidas e são signatárias do Pacto de Autarcas para o Clima e a Energia.

Embora todas as cidades estejam a sofrer os impactos das alterações climáticas, a perceção e o nível de sensibilização das pessoas variam muito. Nas cidades com um passado industrial, muitas pessoas, sobretudo as gerações mais velhas, observaram uma melhoria nas condições ambientais. Enquanto em Gelsenkirchen, geralmente há um grau mais elevado de sensibilização para as alterações climáticas, há também uma certa "fadiga climática". Cada cidade tem níveis diferentes de experiência com o envolvimento nas alterações climáticas: enquanto, em alguns casos, organizações individuais estão a agir, nenhuma das cidades envolveu ativamente o setor em iniciativas relacionadas com as alterações climáticas. Não obstante, todas as cidades partilham um reconhecimento do papel que as artes e a cultura podem desempenhar no envolvimento dos cidadãos no domínio das alterações climáticas e na respetiva ação inspiradora e mobilizadora.

"As alterações climáticas são um dos maiores desafios que enfrentamos como sociedade, um desafio que requer uma resposta rápida e urgente. Como uma cidade na qual as artes, a cultura e o património cultural são centrais - ao nosso passado, presente e futuro - não consigo pensar em nenhum setor melhor do que as artes e a cultura para enfrentar este desafio.” Refere Petar Mišura, Chefe do Departamento de Economia, Empreendedorismo e Desenvolvimento, Šibenik

A rede C-Change irá exigir uma nova maneira de trabalhar, o que traz consigo tanto oportunidades como desafios. Em Wroclaw, um dos principais problemas será o estabelecimento de colaboração no setor. De acordo com Katarzyna Szymczak-Pomianowska, Chefe de Desenvolvimento Sustentável de Wroclaw "É nossa intenção agora apoiar as artes e a cultura na nossa cidade para nos unirmos de forma a agir em relação às alterações climáticas e contar com este apoio para ajudar os nossos cidadãos a entenderem as questões que enfrentamos e a atuarem por iniciativa própria.”

Para Gelsenkirchen, no coração da região do vale do Ruhr, desenvolver um modelo de colaboração que funcione tanto para a cidade como para outras cidades da região do Ruhr será simultaneamente o maior desafio e a maior oportunidade. Para Šibenik, que não tem uma estratégia em matéria de alterações climáticas, o seu envolvimento na rede C-Change é uma oportunidade de aprender com outras cidades, à medida que começa logo desde o início a incorporar as alterações climáticas na nova estratégia da cidade, associando-a à cultura .

"Mântua está particularmente entusiasmada com a forma como o intercâmbio com outras cidades europeias pode ajudar-nos a aproximar as nossas estratégias culturais e ambientais com o envolvimento ativo das artes e da cultura e a ajudar-nos a trabalhar para concretizar-mos as nossas prioridades como cidade, das alterações climáticas à reabilitação urbana, conservação do património e participação do público." Diz Adriana Nepote, Conselheira de Pesquisa e Inovação, Universidade e Projetos Europeus

Em Águeda, tanto a cidade como o setor já se encontram ativos em matéria de alterações climáticas. A rede C-Change é uma oportunidade para acelerar o progresso, ao envolver e mobilizar os cidadãos de uma forma que apoie diretamente os ambiciosos objetivos de desenvolvimento sustentável da cidade. "A arte, a cultura e a criatividade podem ser um meio particularmente eficaz de envolver o público na questão das alterações climáticas e os atores culturais estão a desempenhar um papel cada vez mais significativo nesta área. Agradecemos a oportunidade oferecida pela rede C-Change tendo em vista a troca de experiências relativamente à ação e ao empenho no domínio das alterações climáticas, para o enriquecimento de todos.” Refere Elsa Corga, Vereadora do Município de Águeda e Conselheira para a Cultura

À medida que os parceiros da rede C-Change embarcam nesta colaboração inovadora e oportuna, uma coisa é absolutamente clara: não há tempo a perder.

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Texto da autoria de Claire Buckley apresentado a 14 de março de 2019