Cinco Boas Práticas URBACT que aproximam as cidades da natureza para uma melhor gestão da água nas cidades

Edited on 08/05/2026

Projeto de Recuperação Ecológica Águeda LIFE (PT)

Projeto de Recuperação Ecológica Águeda LIFE (PT)

À medida que as alterações climáticas intensificam as pressões sobre a gestão da água nas cidades, estas apostam na mudança, introduzindo infraestruturas verdes para reforçar a resiliência hídrica local.

Na sua declaração por ocasião do Dia Mundial da Água de 2026, a Comissária Europeia para o Ambiente, a Resiliência Hídrica e uma Economia Circular Competitiva, Jessika Roswall, defendeu a resiliência hídrica. «A tomada de decisões inclusiva, a colaboração e a ação multilateral são fundamentais para uma resposta eficaz», salientou.

As cidades em toda a UE enfrentam precipitações cada vez mais irregulares, uma vez que o aumento dos fenómenos meteorológicos extremos implica chuvas mais intensas, mas também períodos de seca mais acentuados, esgotando os recursos hídricos. Isto coloca desafios urgentes às autoridades locais no que diz respeito ao planeamento e à salvaguarda do bem-estar dos residentes.

As seguintes cidades estão a utilizar soluções hídricas baseadas na natureza para reforçar a resiliência urbana. Todas as cinco fazem parte das 116 Boas Práticas URBACT selecionadas em 2024 pelas suas abordagens participativas e integradas, impactos locais positivos e transferibilidade para outras cidades da UE. 

 

Vamos aprofundar o tema!

 

#1 – Região de Kiel (DE)

 

Situada na costa do Báltico, com zonas urbanas e rurais densamente povoadas, dois fiordes e um dos canais de navegação mais movimentados do mundo, a Região de Kiel é particularmente vulnerável às variações climáticas, desde inundações costeiras repentinas até flutuações nos níveis das águas subterrâneas.

Em resposta, o projeto Smart Water Measurement de Kiel utiliza tecnologia de sensores para monitorizar os níveis de água e prever fenómenos meteorológicos extremos. Ao longo de dois anos, com o apoio da iniciativa nacional «Smart Cities made in Germany», o projeto reuniu mais de 2 000 sugestões de cidadãos, funcionários da administração, políticos e partes interessadas regionais. Realizaram-se também workshops com as partes interessadas e um fórum interdisciplinar de especialistas. Isto permitiu a criação de uma infraestrutura de dados regional, envolvendo gabinetes locais de engenharia civil, empresas de saneamento e a autoridade responsável pela água. 

Durante os testes em dois locais-piloto, bacias de incêndio e uma bacia de retenção de águas pluviais foram equipadas com sensores e um painel de controlo. Foram definidos valores-limite para que, quando os níveis de água forem excedidos, a autoridade responsável receba um alerta automático. A ligação de modelos meteorológicos com medições de sensores ajuda as autoridades a antecipar melhor as chuvas intensas, reduz a necessidade de verificações manuais das infraestruturas de drenagem e retenção e apoia abordagens de planeamento como o modelo de cidade-esponja.

 

Principais conclusões para a sua cidade

 

O projeto de Kiel já está a ser preparado para ser alargado a outros locais e autoridades locais em todo o território. Com projetos-piloto e diretrizes de código aberto, este modelo escalável e transferível pode ajudar os governos locais, os urbanistas e os decisores de qualquer cidade a utilizar a gestão da água baseada em dados para melhorar a adaptação às alterações climáticas e construir comunidades mais resilientes.

Além disso, a experiência de Kiel sugere três lições práticas para outras cidades: (1) combinar a monitorização da água em tempo real com limiares de alerta claros para as autoridades; (2) desenvolver o sistema em colaboração com os intervenientes no setor das infraestruturas, tais como as autoridades responsáveis pela água e as empresas de saneamento, desde o início; (3) e integrar o trabalho numa estratégia mais ampla de cidade inteligente, a fim de garantir o envolvimento dos cidadãos e das partes interessadas.

Sistema de monitorização de água (DE)

 

#2 – Püspökszilágy (HU)

 

Uma comunidade rural uniu-se para transformar a sua planície aluvial numa zona húmida, recorrendo a um sistema Natural de Retenção de Água (Natural Water Retention Measures -NWRM) em pequena escala. Isto estabilizou os níveis das águas subterrâneas, mitigou os riscos de escassez de água, aumentou a biodiversidade, atraiu turistas e pôs fim às inundações repentinas, dispendiosas e devastadoras, na aldeia e nas explorações agrícolas circundantes.

Como é que isto foi conseguido numa área com colinas íngremes e com o apoio de vários proprietários de terras e administrações? Para começar, os especialistas explicaram os modelos de escoamento de água e as opções de NWRM às partes interessadas. Em seguida, especialistas, residentes, agricultores e outros grupos ajudaram a decidir quais as soluções a implementar através de uma Plataforma de Partes Interessadas da Bacia Hidrográfica (Water Catchment Area Stakeholder Platform) que agora coordena as intervenções em nove autoridades, abrangendo 210 km². Foram também construídas sete barragens de troncos e renovadas três pequenas barragens de pedra. Em 2019, foi construída uma lagoa de retenção de água para regular as águas subterrâneas e o microclima, criando uma área recreativa e um habitat para espécies protegidas – aumentando a biodiversidade em 25%. Outras NWRM incluem uma barragem de terra, valas de drenagem e sebes.

Desde 2017, estas medidas de pequena escala eliminaram completamente os danos causados pelas cheias repentinas, que anteriormente tinham provocado cerca de 250 000 euros de prejuízos em infraestruturas e 100 000 euros em prejuízos agrícolas. A monitorização revelou também que os níveis das águas subterrâneas se tornaram muito mais estáveis, com flutuações de apenas 15 cm, em vez dos anteriores 3-4 m, o que ajudou a reduzir os riscos de escassez de água durante os períodos quentes e secos. Como prova do sucesso destas medidas, o ribeiro Szilágyi foi o único na região que não secou durante a seca histórica de 2022.

Tudo isto foi alcançado com o apoio local de agricultores, que utilizaram pás, e de turmas escolares que verificavam regularmente as suas NWRM «adotadas». O município continua a envidar esforços em toda a bacia hidrográfica, utilizando uma Plataforma de Partes Interessadas (Stakeholder Platform) para equilibrar os interesses de silvicultores, agricultores, comunidades e grupos de proteção da natureza com as necessidades ambientais, económicas e sociais.

 

Principais conclusões para a sua cidade

 

No que diz respeito a Püspökszilágy, há três conclusões principais: (1) mesmo pequenas intervenções, como barragens de troncos e sebes, são eficazes; (2) o planeamento baseado na bacia hidrográfica pode ajudar a identificar pontos de intervenção e a reduzir as inundações a jusante; e (3) a coordenação entre as autoridades locais e as partes interessadas é fundamental.

Bacia hidrográfica (HU)

 

#3 – Borgomanero (IT)

 

Após décadas de poluição industrial, uma grande operação de limpeza do Lago de Orta, realizada em 1987, envolveu um processo de tratamento para neutralizar a água. Hoje, esta intervenção de limpeza com cal continua a ser um caso de estudo científico a nível mundial no âmbito da recuperação de lagos. As ações subsequentes incluíram a reintrodução de espécies de peixes, a proteção dos canaviais e a monitorização das condições ambientais, da vegetação e dos níveis de microplásticos. 

Assim que a limpeza do lago ficou concluída, foi criada uma nova aliança para preservar o ecossistema; em 2021, Borgomanero tinha criado o contrato voluntário do Lago Cusio, assinado por 133 atores locais. Coordenado pelo Ecomuseu local, o contrato propõe ações coletivas e individuais na redução da poluição, no ecossistema do lago, na reabilitação e na educação para a sustentabilidade ambiental.

Uma característica notável deste contrato prende-se com a forma como foi elaborado. Com base em avaliações técnicas territoriais, o processo de elaboração conjunta foi altamente participativo. As discussões realizadas em vários municípios permitiram avaliar em conjunto as necessidades e expectativas das administrações públicas, das empresas e das associações locais envolvidas, definindo soluções comuns para proteger os recursos naturais da bacia hidrográfica e promover o desenvolvimento socioeconómico sustentável.

 

Principais conclusões para a sua cidade

 

A experiência de Borgomanero demonstra o poder de uma abordagem participativa na gestão dos recursos hídricos. É evidente que é importante construir desde cedo uma ampla aliança local: uma das primeiras conquistas foi conseguir que todos os municípios ribeirinhos do lago, juntamente com as principais indústrias e associações, trabalhassem em conjunto num quadro comum coordenado por uma instituição local de confiança.

Outros municípios podem utilizar esta ferramenta para definir em conjunto a sua própria estratégia de gestão sustentável do lago. Os passos fundamentais incluem:

  • Definir os limites e as características das bacias hidrográficas 

  • Analisar as fontes de poluição, os regimes jurídicos, os planos de desenvolvimento e os projetos anteriores ou em curso 

  • Identificar os valores históricos e culturais e as necessidades da comunidade; envolver os atores locais e as principais partes interessadas 

  • Contar com apoio técnico e científico; e identificar fontes de financiamento

 

Lago de Orta (IT)

 

#4 – The Hague (NL)

 

O lixo nos cursos de água e nas praias constitui um desafio persistente para a manutenção da limpeza das águas locais. Haia encontrou uma abordagem participativa para superar este desafio. A iniciativa Manter as águas locais limpas (Keeping local waters clean) colabora com vários parceiros, residentes, escolas e visitantes, num modelo que se tem vindo a desenvolver progressivamente ao longo do tempo.

Em resposta às grandes quantidades de lixo levadas para o mar através dos muitos canais de Haia, foram propostos vários projetos por empreendedores sociais e desenvolvidos com financiamento da cidade. Em 2016, para um desses projetos, a cidade associou-se à TrashUre Hunt para um desafio de verão que consistia em recolher lixo da praia em troca de um vale que podia ser trocado por diferentes workshops criativos. A participação cresceu de 600 pessoas em 2016 para 2 678 em 2023, ano em que os participantes recolheram cerca de 3 000 kg de lixo e 100 000 filtros de cigarro. Também em 2023, num esquema semelhante, cerca de 1 500 participantes trocaram sacos de lixo por café gratuito em cerca de 25 bares de praia.

Posteriormente, a cidade lançou projetos relacionados com os canais, permitindo que 1 300 pessoas praticassem paddle boarding gratuitamente em 2023, em troca da recolha de lixo ao longo do percurso, e organizou passeios de barco pelos canais para jovens entre os 12 e os 18 anos, para «pescar plástico», no âmbito do currículo escolar. No total, cerca de 5 800 pessoas participaram ativamente nestas atividades em 2023.

A cidade pretende ajudar estas iniciativas a tornarem-se autossustentáveis, para que os seus recursos possam ser utilizados para apoiar novas iniciativas.

 

Principais conclusões para a sua cidade

 

A experiência de Haia demonstra que atividades simples e de fácil acesso podem atrair um grande número de participantes quando são desenvolvidas em colaboração com parceiros locais e apoiadas por uma comunicação eficaz. No entanto, tal requer: um responsável político ou gestor de projetos dedicado, para motivar as partes interessadas a iniciar ou expandir projetos; um responsável pela comunicação, para aumentar a participação; e apoio político local.

 

Limpeza de lixo com pranchas de paddleboard (NL)

 

#5 – Águeda (PT)

 

Este projeto de recuperação fluvial aborda os desafios ambientais, económicos e sociais interligados da renaturalização dos rios e das suas margens. O projeto de recuperação ecológica LIFE Águeda aproxima as pessoas dos rios, restaurando o estado ecológico de mais de 50 km de habitats aquáticos e ribeirinhos na Bacia Hidrográfica do Rio Vouga, em Portugal, em conformidade com várias diretivas da UE, nomeadamente as relativas à água, às aves e aos habitats. No total, o projeto aumentou a resiliência às inundações em 35 ha de planícies aluviais.

A abordagem multidisciplinar inclui reuniões do Comité de Acompanhamento ou sessões públicas com juntas de freguesia, representantes do setor das pescas, organismos de gestão da água, associações e residentes para debater os trabalhos em curso e os próximos passos.

As principais intervenções físicas incluem: 

  • a remoção de barragens que funcionam como barreiras para as espécies de peixes migratórios, tendo sido removidos oito obstáculos para melhorar a continuidade do rio;

  • a construção de múltiplas passagens para peixes, incluindo 3 passagens permanentes naturalizadas e 2 temporárias;

  • a remoção de espécies invasoras;

  • a reflorestação com milhares de espécies nativas de árvores e arbustos; e

  • a deslocação de espécies ameaçadas de extinção, tais como enguias europeias juvenis, melhorando simultaneamente o habitat de, pelo menos, 4 outras espécies protegidas.

 

No que diz respeito à sensibilização ambiental, as ações realizadas nas escolas e na comunidade chegaram a mais de 7 600 pessoas. A acessibilidade ribeirinha é uma prioridade, com percursos pedestres melhorados, uma cadeira de rodas elétrica e-CaR, painéis interpretativos e um Centro de Conhecimento do Rio. Águeda propôs-se também aumentar o valor comercial dos peixes autóctones em, pelo menos, 25 %, através de um novo selo de origem, bem como de uma estação móvel de registo e da aplicação Fishing in Portugal, para apoiar a gestão sustentável das pescas.

 

Principais conclusões para a sua cidade

 

Esta prática é útil para qualquer comunidade que pretenda restaurar ecossistemas aquáticos, reforçar a biodiversidade, envolver as comunidades e aumentar o valor comercial dos peixes autóctones. Várias cidades e organizações já visitaram as passagens para peixes e as soluções baseadas na natureza de Águeda, com o objetivo de inspirar melhorias nos seus próprios territórios.

 

Rio Vouga (PT)

 

Manter as fontes de água renovadas e recuperadas

 

Estas cinco práticas de gestão da água em zonas urbanas mostram como as vilas e as cidades podem encontrar soluções, e até oportunidades, ao trabalhar em sintonia com a natureza. Desde ações locais de pequena escala até estratégias abrangentes e coordenadas, destacam formas práticas de reforçar a resiliência, proteger os ecossistemas e envolver as comunidades. 

 

Mais especificamente,

  • Para qualquer município que enfrente secas, inundações e ondas de calor cada vez mais frequentes, as Medidas de Retenção Natural de Água em pequena escala oferecem uma forma comprovada e adaptável de reforçar a resiliência climática local, ao mesmo tempo que cumprem os requisitos das políticas da UE.

  • A monitorização e gestão eficazes da água devem fazer parte de uma estratégia mais ampla de cidade inteligente e de infraestruturas robustas. 

  • A cocriação e a participação permitem que estas práticas prosperem, impulsionando a participação cívica através de atividades públicas interativas, mas também atraindo as partes interessadas locais para parcerias de longo prazo.

  • A recuperação da água e a biodiversidade podem andar de mãos dadas com os esforços para impulsionar a economia local.

 

Procura mais inspiração para aproximar a sua cidade da natureza, reforçando a resiliência e a participação local? Visite o Centro de Conhecimento sobre Soluções Baseadas na Natureza do URBACT (URBACT´s Nature-based Solutions Knowledge Hub) e a mais recente seleção de Boas Práticas URBACT na base de dados.

 

Traduzido do original em inglês submetido pelo URBACT em 17/04/2026

 

 

Submitted by on 08/05/2026
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Maria José Efigénio

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