Com o impulso das pessoas: oito Boas Práticas URBACT que transformam a cooperação em inovação social

Edited on 27/02/2026

Um grupo de pessoas reunidas em torno de uma bicicleta dentro de casa, concentradas e apontando para um pequeno dispositivo montado no guiador, num ambiente colaborativo.

A Comon convida residentes, investigadores e o governo local para juntos definirem desafios urbanos e conceber soluções em conjunto. Fonte da foto: município de Ghent.

Um grupo de pessoas reunidas em torno de uma bicicleta dentro de casa, concentradas e apontando para um pequeno dispositivo montado no guiador, num ambiente colaborativo.

As cidades estão a experimentar diferentes formas e espaços de colaboração entre pessoas e instituições.

Perante desafios complexos e interligados, os urbanistas e os responsáveis municipais estão a criar formas criativas de tornar as cidades mais resilientes e inclusivas. Um método, em particular, centra-se no empoderamento dos cidadãos e na construção de redes de cooperação. A «inovação social» está a tornar-se uma nova forma de governar e moldar o domínio público, baseada na inteligência coletiva das pessoas. 

As Boas Práticas URBACT destacam soluções valiosas para as cidades europeias em temas que vão desde a mobilidade à habitação, passando pela regeneração urbana verde, a inovação social e a economia local. Entre as 116 Boas Práticas URBACT premiadas em 2024, oito cidades destacam-se pelo seu trabalho em transformar a colaboração em transformação. Da empregabilidade à regeneração dos bairros, estas práticas podem ser vistas como parte do movimento de inovação social: as cidades estão a passar da prestação de serviços para a criação colaborativa de cidades.

 

Inovação social nas cidades

 

A inovação social é frequentemente descrita em relação a um bem social. Nas cidades, este tipo de inovação pode ocorrer quando cidadãos, funcionários públicos, investigadores e atores locais experimentam de forma conjunta resolver problemas comuns, muitas vezes fora das hierarquias de poder tradicionais. Por outras palavras, a inovação social surge quando as instituições e os organismos públicos se tornam suficientemente permeáveis para permitir a entrada de novos conhecimentos, abrindo a governança e transformando a colaboração num método de construção da cidade. Essa criatividade coletiva, que está no cerne da inovação social e da capacidade de gerar valor social por meio da confiança, pode fortalecer e ampliar um sentido comum de partilhado.

Nas oito práticas apresentadas neste artigo, a inovação social desenvolve-se por meio de três caminhos principais: 

• Cidades que transformam os seus sistemas públicos a partir de dentro

• Comunidades que usam espaços e redes como motores de colaboração

• Pessoas que desenvolvem capacidade de ação para moldar suas próprias vidas quotidianas

À luz da investigação atual sobre inovação social, essas práticas destacam não apenas tipologias institucionais, mas também as diferentes lógicas de mudança.

 

Sistemas públicos que aprendem e se adaptam

 

As instituições públicas estão a repensar a forma de proporcionar valor social através da colaboração e da governação integrada. Estas instituições devem reconhecer que a complexidade exige colaboração e que a aprendizagem deve tornar-se parte integrante da própria governação.

 

#1 – Barcelona (ES)

 

O programa Làbora liga candidatos a emprego vulneráveis a oportunidades de emprego através de uma parceria entre a câmara municipal, organizações sociais e empresas. Criado em resposta ao aumento do desemprego, o programa oferece percursos integrados que combinam formação profissional, mentoria e apoio à colocação. Todos os anos, cerca de 6 000 pessoas participam no programa e 1 000 encontram um emprego, recuperando a autonomia através de um trabalho digno.

A inovação da Làbora reside numa nova forma de trabalhar: um sistema público que coordena com a sociedade civil em vez de agir em paralelo. O programa demonstra como a colaboração estruturada entre governos locais e as ONG pode humanizar as políticas de emprego e tornar a inclusão escalável.

 

#2 – Miskolc (HU)

 

Tal como muitas cidades europeias, Miskolc enfrenta desafios de exclusão social, desemprego e deterioração das condições habitacionais. Em vez de abordar cada questão separadamente, a Urban initiative for innovative integrated social services interventions (4IM)  (4IM) utiliza um modelo de bem-estar integrado que reúne serviços sociais, de saúde e de emprego em torno das necessidades dos residentes. Esta mudança, da fragmentação para a integração, exemplifica a inovação social sistémica, com serviços públicos concebidos como parte de um ecossistema holístico. 

Embora esta abordagem não seja nova, colocá-la em prática é uma verdadeira conquista. Miskolc desenvolveu e testou um modelo coordenado em dois bairros carenciados, combinando cinco pacotes de serviços personalizados – desde apoio imediato ao emprego e formação profissional até melhorias habitacionais, assistência à saúde e ao endividamento e mobilização comunitária. Através de equipas de divulgação coordenadas e mapeamento ao nível das famílias, a maioria dos residentes locais envolveu-se em atividades de emprego, formação ou outras atividades de inclusão social.

Em suma, Miskolc prova que, mesmo com recursos limitados, as cidades podem inovar coordenando os ativos existentes em torno das pessoas, abordando-as como recursos vivos que ajudam a desenvolver a inteligência administrativa.

 

                                      

 

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O que pode a sua cidade aprender com estes exemplos 

 

Tanto Barcelona como Miskolc mostram como a integração e a coordenação podem ajudar a desbloquear a inovação, mesmo quando os recursos são limitados. Além disso, parcerias estruturadas entre municípios e as ONG podem tornar as políticas de bem-estar mais significativas e eficazes. Ambas as práticas lembram-nos que a inovação social pode acontecer dentro da burocracia quando a criatividade e a vontade política se alinham.

 

Espaços colaborativos

 

A inovação social precisa de locais onde as pessoas se possam encontrar, interagir e experimentar. Em toda a Europa, as cidades estão a criar infraestruturas sociais: centros, laboratórios e espaços culturais onde a inovação e a participação se encontram. Esses centros podem ser vistos como bens comuns urbanos, infraestruturas muito necessárias para a colaboração.

 

#3 – Roeselare (BE)

 

O Community Innovation Hub de Roeselare funciona como uma interface entre o município e os cidadãos, oferecendo ferramentas, orientação e microcréditos para iniciativas cívicas. Ao enquadrar os cidadãos como criadores da cidade, a cidade pode aproveitar ao máximo um fluxo de soluções bottom-up, desde projetos locais de sustentabilidade até esquemas de inclusão digital. 

O Hub recebe mais de 120 visitantes por dia, com mais de 700 atividades comunitárias realizadas anualmente. Na prática, as atividades do hub envolvem uma ampla gama de programas acessíveis e espaços partilhados: desde assistência digital a workshops para jovens, uma mercearia social que reduz o desperdício alimentar e um Repair Café gerido por voluntários que reparam aparelhos eletrónicos e outros itens. Atendendo cerca de 120 visitantes por dia, o Hub combina serviços essenciais com oportunidades de aprendizagem, voluntariado e cocriação. 

Através deste modelo, os residentes moldam ativamente a utilização dos espaços partilhados, com o município a atuar como facilitador, proporcionando as condições para que a criatividade cívica floresça.

 

#4 – Ghent (BE)

 

A Comon convida residentes, investigadores e o governo local para, juntos, definirem desafios urbanos e conceber soluções em conjunto. Utilizando métodos de design-thinking, o processo está sempre aberto: os problemas não são pré-definidos pelo município, mas reconhecidos através do diálogo. 

Um dos principais desafios identificados em Ghent foi a dificuldade que muitos residentes enfrentavam para navegar no sistema de saúde, especialmente os que não eram falantes nativos e as pessoas com baixo nível de literacia em saúde. Através de workshops e maratonas de criação, os participantes cocriaram soluções práticas, como o RingMe, um robot telefónico multilingue para consultas médicas, e o ExplainMed, uma ferramenta que traduz documentos médicos para uma linguagem acessível. Esses protótipos foram testados em ambientes reais, combinando experiência em investigação com experiência vivida.

A cidade avançou significativamente desde que teve a coragem de dizer «não temos todas as respostas» e se abriu para que outros cocriassem soluções tecnológicas centradas nas pessoas baseadas nas necessidades reais da comunidade.

                       

 

Community Innovation Hub em Roeselare (BE).

Comon em Ghent (BE).

 

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#5 – Brindisi (IT)

 

O social innovation hub de Brindisi é uma rede de 10 edifícios municipais subutilizados, localizados tanto no centro histórico como nos bairros periféricos. Este espaço foi transformado em centros multiusos onde jovens, empreendedores sociais e agentes culturais colaboram. Estas antigas propriedades públicas, outrora vazias ou marginalizadas, funcionam agora como locais de encontro da comunidade que acolhem atividades culturais, educativas e de empreendedorismo social.

Ao associar a regeneração à economia social, a cidade reposiciona a cultura como um motor de inclusão, demonstrando que os bens públicos devolutos podem tornar-se catalisadores do empreendedorismo social e do sentimento de pertença.

Pelo menos 1000 residentes já beneficiaram de programas de formação, de eventos e de novos serviços comunitários desenvolvidos em toda a rede de casas de bairro.

 

#6 – Braga (PT)

 

O Human Power Hub é um acelerador de inovação social que oferece mentoria, espaço de trabalho e formação para agentes de mudança locais. A iniciativa funciona como um centro estruturado de empreendedorismo social, construindo um ecossistema que interliga a estratégia municipal, a investigação académica, as empresas e a ação comunitária.

Desde a sua criação, apoiou mais de 50 empresas sociais, ajudou a criar mais de 200 postos de trabalho e envolveu mais de 1 000 cidadãos em programas de capacitação, posicionando Braga como uma referência regional em matéria de inovação social.

Social innovation hub em Brindisi (IT).

Human Power Hub in Braga (PT).

 

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O que pode a sua cidade aprender com estes exemplos  

 

Analisando as estas quatro práticas, o espaço partilhado, por si só, é um método de inovação social, através do qual as cidades podem atuar como facilitadoras, proporcionando espaço e apoio à inovação liderada pelos cidadãos. Em Brindisi, os espaços urbanos subutilizados podem ser transformados em espaços comunitários inclusivos e produtivos, enquanto em Braga, as parcerias intersetoriais criam um terreno fértil para o desenvolvimento dos agentes de mudança locais.

 

Desenvolver competências e capacidade de ação

 

Algumas cidades estão a investir diretamente nas pessoas, promovendo as competências e a confiança que sustentam a inovação social. Em toda a Europa, no entanto, muitas áreas urbanas enfrentam desafios como a falta de competências, a emigração dos jovens e o acesso desigual à educação e às ferramentas digitais, que podem enfraquecer a capacidade de inovação a longo prazo se não forem resolvidos.

 

#7 – Amarante (PT)

 

O Tech Hub for Local Futures apoia a literacia digital, o empreendedorismo e a inovação entre os jovens residentes em contextos urbanos de menor dimensão. Colmata o fosso digital, demonstrando que as cidades pequenas podem acolher ecossistemas de inovação que retêm e sustentam jovens talentosos.

Através de programas de formação inclusivos alinhados com as necessidades da indústria, parcerias com universidades e empresas tecnológicas e vias diretas para estágios e colocações profissionais, o Hub liga o talento local a oportunidades de emprego reais. 

 

Até agora, a iniciativa fortaleceu a economia local, reduzindo a necessidade de os jovens migrarem para centros urbanos maiores. Entre os principais resultados da iniciativa, 200 participantes concluíram programas de formação e cerca de 70% conseguiram empregos relacionados com tecnologia, além da criação de 15 startups.

 

#8 – Kristianstad (SE)

 

Em Kristianstad, o desenvolvimento dos bairros concentra-se na construção de liderança dentro das comunidades através do Urban Community Development Näsby. Através de processos participativos, os residentes cocriam projetos locais que abordam a segurança, a inclusão e a coesão.

Esses projetos vão desde cursos de ciclismo e aluguer gratuito de bicicletas elétricas para melhorar a mobilidade verde, até à cocriação de espaços públicos mais seguros com nova iluminação e arte pública, feiras locais que promovem a economia circular, iniciativas de leitura que incentivam a alfabetização familiar e a criação de espaços de diálogo onde os residentes se encontram com representantes municipais e ONG.

Sejam digitais ou sociais, estes projetos partilham a convicção de que a inovação começa quando se confia nas pessoas para aprender e liderar. O reforço da capacitação não é um efeito secundário, é o resultado principal.

 

Tech Hub for Local Futures em Amarante (PT).

Urban Community Development Näsby em Kristianstad (SE).

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O que pode a sua cidade aprender com estes exemplos  

 

Olhando para Amarante e Kristianstad, fica claro que a descentralização da inovação ajuda as cidades mais pequenas a reter talentos e a criar novas oportunidades de emprego. Além disso, capacitar a liderança local é essencial para a resiliência da comunidade a longo prazo.

 

Avançar juntos

 

Nestas oito cidades, a inovação social assume muitas formas, seja como um programa de empregabilidade, um laboratório de cocriação ou um centro comunitário. De diferentes maneiras, cada uma das práticas acima apresentadas revela que a inovação vai além da tecnologia e tem muito a ver com confiança, competência e interligação. No entanto, todas partilham uma base comum: a cooperação como cultura. Quando as instituições e os cidadãos cocriam, a própria cidade torna-se um organismo de aprendizagem baseado na confiança conquistada ao longo do tempo.

Procura mais soluções urbanas? Inspire-se nas últimas Boas Práticas URBACT! Cada uma das práticas faz parte de uma base de dados de métodos testados para o desenvolvimento urbano sustentável. Algumas destas práticas são transferidas para outras cidades através das Redes de Transferência URBACT. Fique atento às atualizações.

Traduzido do original em inglês submetido em 19/02/2026

Autora: Laura Sobral, urbanista e investigadora com foco em governança participativa, inovação social e construção cooperativa de cidades.

Submitted by on 27/02/2026
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Maria José Efigénio

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