Imagine um espaço urbano onde possa fazer uma pausa da agitada vida da cidade, rodeado por prados floridos e abelhas. E se pudesse partilhar a sombra das árvores com ninhos de pássaros e outras espécies locais?
Isto pode parecer idílico, tendo em conta que as cidades de hoje enfrentam uma expansão urbana crescente, o efeito de ilha de calor, inundações e outros fenómenos climáticos extremos. Restabelecer a ligação com a natureza já não é uma opção; é uma necessidade para melhorar a situação e benefício de todos. É disso que tratam as Soluções Baseadas na Natureza.
Este artigo apresenta as Redes de Planeamento de Ação URBACT BiodiverCity, GreenPlace e Re-Gen. Entre 2023 e 2025, os parceiros municipais de cada rede desenvolveram Planos de Ação Integrados que colocam as Soluções Baseadas na Natureza no centro das atenções. Saiba mais sobre o seu percurso, com estudos de caso inspiradores e recursos práticos para proteger e valorizar a biodiversidade, regenerar espaços urbanos e implementar novas áreas de lazer e recreação.
O que são, exatamente, as Soluções Baseadas na Natureza?
Talvez já tenha uma ideia do que são as Soluções Baseadas na Natureza; afinal, os termos «natureza» e «soluções» fazem parte do próprio nome. De acordo com a União Internacional para a Conservação da Natureza, as Soluções Baseadas na Natureza são «ações destinadas a proteger, gerir de forma sustentável e a restaurar ecossistemas naturais e modificados, que respondem aos desafios sociais de forma eficaz e adaptativa, beneficiando simultaneamente as pessoas e a natureza».
Sabemos que, devido ao aumento das temperaturas e às alterações climáticas, as cidades enfrentam mais inundações, ondas de calor, poluição atmosférica e do solo, bem como mais problemas relacionados com a saúde. As Soluções Baseadas na Natureza podem ajudar as cidades a mitigar diversos riscos climáticos. Tomemos as inundações como exemplo: as cidades poderiam de-seal (remover a impermeabilização) as suas ruas, construir wadis (leitos de rios secos artificiais) ou aumentar a área verde, avançando para um modelo de «cidade-esponja». Ao plantar mais árvores, poderiam aumentar a sombra disponível e a nebulização natural, ao mesmo tempo que arrefeciam os espaços urbanos dominados pelo betão: e todos poderíamos desfrutar de um pouco de frescura. Ao dar novos fins a infraestruturas antigas, poderiam limitar a sua expansão e mineralização, proporcionando, ao mesmo tempo, espaço para as artes e a cultura, o empreendedorismo ou o alojamento. A melhor parte de tudo isto é que, não só beneficiaríamos da própria solução, como seriam criados postos de trabalho, uma vez que precisaríamos de novas aptidões e competências integradas em novas formas de pensar e de construir a cidade.
Vamos ver o que é que três cidades de uma rede URBACT podem partilhar sobre as suas experiências…
Proteger a biodiversidade num contexto urbano-agrícola
A rápida urbanização em Guimarães (PT) provocou uma perda notável da biodiversidade urbana. Os efeitos em cadeia sobre serviços ecossistémicos essenciais, como a polinização, e a falta de pequenos habitats húmidos são exemplos locais que demonstram que 81% dos habitats protegidos da UE e 63% das espécies protegidas da UE se encontram num estado de conservação «insuficiente» ou «mau». E as perspetivas de melhoria são alarmantes.
No âmbito do projeto BiodiverCity, Guimarães foi uma das 10 cidades parceiras a explorar abordagens baseadas na comunidade. A cidade portuguesa testou uma Solução Baseada na Natureza para reforçar a conectividade ecológica, no âmbito da sua abordagem em matéria de infraestruturas Azuis: experimentou a criação de um lago para a vida selvagem.
Após realizar um levantamento ecológico de referência, em conjunto com a comunidade, a cidade instalou caixas-ninho para aves e morcegos e criou microhabitats. Como resultado, o lago funcionou como um demonstrador vivo, mostrando como microintervenções específicas podem contribuir para objetivos mais amplos de restauração e conectividade ecológica. Além disso, por ter estado envolvida desde o início, a comunidade sentiu que o lago lhe pertencia e dedicou-se a cuidar dele.
Para as cidades dispostas a transformar a sua relação com a natureza, o projeto BiodiverCity elaborou um Guia de Biodiversidade Urbana.
O projeto BiodiverCity incluiu as cidades de Dunaújváros (HU) (parceiro líder), Vratsa (BG), Veszprém (HU), Guimarães através do Laboratório da Paisagem (PT), Cieza (ES), Siena (IT), Limerick (IE), Den Bosch (NL) e Sarajevo (BiH).
Conceber a regeneração urbana com os cidadãos
As Soluções Baseadas na Natureza fazem mais do que aumentar a biodiversidade: podem também transformar espaços abandonados em locais que as pessoas utilizam ativamente, como se verificou em Limerick (IE), uma das 10 cidades parceiras envolvidas no projeto GreenPlace.
Estava prestes a ser construída uma nova zona residencial nos arredores da cidade, numa zona pantanosa com dificuldades de drenagem. A zona carecia também de instalações recreativas. Ao mesmo tempo, o local ficava junto a uma área industrial abandonada: parecia o local perfeito para testar novas soluções destinadas a melhorar a qualidade de vida dos residentes, proporcionando infraestruturas adequadas.
Desde o início, a comunidade esteve envolvida em conjunto com especialistas. Através de várias atividades, tais como oficinas sobre a natureza, plantação de árvores ou bioblitz, cocriaram o projeto e as soluções para o local, incluindo elementos de Sistemas de Drenagem Sustentáveis, como jardins de chuva e valas de drenagem, bancos, esculturas, elementos lúdicos feitos a partir de árvores caídas, bem como a plantação de floresta nativa e sebes. Ao modelar o terreno existente, surgiram também novas oportunidades de lazer.
Através desta experiência, os residentes perceberam que os parques infantis podiam ser, no seu conjunto, um espaço seguro, com baixas emissões de carbono, que os ligasse à natureza e criasse interação social. As técnicas e os materiais utilizados tornaram-se também um modelo para o desenvolvimento de espaços abertos a baixo custo, associando-os a ações climáticas e à biodiversidade. Isso influenciou igualmente a política relativa a áreas recreativas da cidade. Para dar seguimento a tais atividades, pela primeira vez, o Governo Central atribuiu um fundo de 100 000€ para projetos recreativos na natureza em 2026, tanto para o Conselho Municipal do Condado de Limerick, como para o Conselho do Condado de Clare.
A rede GreenPlace compilou uma visão geral de práticas inspiradoras para outras cidades que pretendam recuperar áreas urbanas «esquecidas» e criar +áreas verdes em espaços urbanos degradados. Está também disponível uma série de Testing Action Learning Cards, que fornecem perspetivas e lições aprendidas pelas cidades parceiras que estão a levar a cabo essas atividades.
O GreenPlace incluiu as cidades de Wrocław (PL) (parceiro líder), Nitra (SL), Vila Nova de Poiares (PT), Boulogne-sur-Mer Développement Côte d’Opale (FR), Löbau (DE), Bucareste (RO), Onda (ES), Qarto d’Altino (IT) e Limerick (IE).
Com a rede Re-Gen, nove cidades parceiras puderam experimentar novas formas de serviços públicos que podem beneficiar todas as idades: estas podem constituir o cerne da conceção de áreas de lazer e áreas recreativas.
No âmbito do Re-Gen, Daugavpils (LV) iniciou um percurso que visa utilizar o desporto como motor para cidades sustentáveis, inclusivas e ecológicas. O parque Esplanade era uma zona pantanosa natural e caótica, sem uma estrutura ou finalidade claras. A cidade decidiu transformar o parque num espaço desportivo multifuncional, integrando infraestruturas verdes e Soluções Baseadas na Natureza.
Por um lado, a cidade lançou um programa de recuperação da natureza que incluiu a remoção de rebentos invasores de árvores e arbustos, o desbaste da vegetação arbustiva e a criação de um sistema de áreas de água aberta e lagoas. Por outro lado, desenvolveu atividades recreativas numa área de quatro hectares, com um lago para banhos, um parque de bicicletas em madeira, um skatepark, um ginásio ao ar livre, percursos para corrida e caminhada, uma pista de ciclismo, parques de jogos e áreas infantis.
O parque tornou-se um destino vibrante, seguro e inclusivo para todas as idades, ao mesmo tempo que melhorou a qualidade dos habitats das espécies protegidas locais: as áreas de água aberta e a linha costeira foram rapidamente habitadas por espécies vegetais e animais que anteriormente estavam ausentes da zona. A perturbação humana foi limitada pela disposição em mosaico de árvores e arbustos mantidos ao longo da orla do local.
Veja o vídeo final do Re-Gen e inspire-se para recuperar os espaços públicos.
O projeto Re-Gen incluiu as cidades de Verona (IT) (parceiro líder), o Centro de Inovação Empresarial de Albacete (ES), Daugavpils (LV), Dobrich (BG), a Kapodistriaki Development S.A. (GR), Lezha (AL), Milão (IT), Pula (HR) e Vila do Conde (PT).
Deixar a natureza entrar nas cidades
Com base nas cidades envolvidas nestas três redes, eis algumas conclusões importantes:
As Soluções Baseadas na Natureza podem e devem ser integradas em todas as soluções urbanas, quer se trate de planeamento urbano, reabilitação ou conceção de novas áreas (recreativas). Devem fazer parte da metodologia. Isto exige uma mudança de mentalidade por parte do município: não é fácil, mas é necessário.
Trabalhar em conjunto produz os melhores resultados: as cidades têm muito a aprender umas com as outras. As experiências anteriores explicarão o que funcionou bem ou não tão bem, tanto a nível técnico, ambiental como social. As lições aprendidas e os intercâmbios registados nos resultados das redes são a melhor demonstração disso.
A adaptação às realidades locais requer um forte envolvimento local. As cidades precisam de trabalhar com as comunidades locais para encontrar soluções adaptadas ao contexto local: elas saberão o que funciona melhor para si próprias – os seres humanos – bem como para a natureza – os não-humanos.
Onde os amantes da natureza podem ir para saber mais
O que acontece quando a natureza é integrada no desenvolvimento urbano, nos espaços e nas atividades comunitárias? Obtemos cidades melhores – cidades mais habitáveis, mais preparadas para as alterações climáticas em curso, com mais oportunidades para trabalhar, viajar ou descansar.
O que podem as outras cidades fazer já para aderir à tendência das Soluções Baseadas na Natureza? Visite as páginas das redes BiodiverCity, da GreenPlace e da Re-Gen para obter orientações práticas, ferramentas e inspiração para as cidades que pretendem integrar as Soluções Baseadas na Natureza nas suas próprias políticas e práticas. Em especial, recorra ao Guia de Biodiversidade Urbana, destinado às cidades que pretendem transformar a sua relação com a natureza, e às Práticas Inspiradoras da rede GreenPlace sobre Soluções Baseadas na Natureza e Infraestruturas Verdes.
Os exemplos acima referidos também podem ser encontrados no recém-criado URBACT Knowledge Hub sobre Soluções Baseadas na Natureza, uma plataforma que reúne estudos de caso das redes URBACT e das Boas Práticas URBACT. Encontrará exemplos práticos de como as cidades planearam e integraram espaços verdes. Seja o que for que se pergunte, é provável que o encontre lá!
Atualmente, a Parceria da Agenda Urbana Greening Cities está também a desenvolver mais recursos. Consulte, em particular, a Metodologia para quantificar a procura de infraestruturas verdes a nível local, o Sistema de indicadores para os Planos de Natureza Urbana e os recursos sobre financiamento inovador por parte das autoridades urbanas para as cidades verdes.
Inspire-se com mais ações locais das cidades URBACT! Fique atento a mais artigos temáticos das 30 Redes de Planeamento de Ação URBACT (2023-2025) sobre ação climática, juventude, saúde e bem-estar, e muito mais.
Traduzido e adaptado do original em inglês submetido pelo URBACT em 25/06/2026 disponível em From brownfields to biodiversity: Nature-based Solutions that make a difference in our cities
Autor: Marcelline Bonneau