Mobilidade para todos: o que é que cinco Redes URBACT de Planeamento de Ação aprenderam sobre como passar dos planos à prática

Edited on 25/09/2026

Melissa Bruntlett, 2025

Desde os percursos escolares mais seguros até às ligações de transportes rurais e ruas acessíveis, cinco Redes URBACT de Planeamento de Ação estão a transformar a mobilidade para todos em ações concretas.

As crianças devem poder deslocar-se em segurança, os idosos devem manter a sua independência e o acesso à educação, ao trabalho, aos cuidados de saúde e aos serviços do dia a dia não deve estar condicionado ao rendimento, ao género, às competências ou ao local de residência de cada um.

Tornar a mobilidade acessível a todos é o tema da SEMANA EUROPEIA DA MOBILIDADE 2026, com especial ênfase na equidade intergeracional. São poucos os líderes que questionariam abertamente o princípio subjacente a esta ideia; no entanto, concordar com ela é consideravelmente mais fácil do que transformá-la numa prática quotidiana.

Entre 2023 e 2025, 44 parceiros em cinco Redes URBACT de Planeamento de Ação desenvolveram planos de ação em matéria de mobilidade para cidades mais abertas e acessíveis. Que desafios enfrentaram e como os superaram? Inspire-se em algumas das ações locais, lições aprendidas e novos recursos que pode aplicar na sua cidade.

 

Prevêem-se atrasos: os desafios da mobilidade na cidade

 

Muitos problemas de mobilidade têm origem numa incompatibilidade entre a forma como as pessoas se deslocam e a forma como as instituições estão organizadas. Uma pessoa pode viver numa aldeia, trabalhar numa cidade próxima, levar um filho à escola noutro município e deslocar-se a um centro regional para receber cuidados de saúde. Do ponto de vista dessa pessoa, estas são partes interligadas da vida quotidiana. Do ponto de vista institucional, esses mesmos percursos podem abranger vários territórios, sistemas de transporte, orçamentos e responsabilidades políticas.

A mesma rua, o mesmo serviço de autocarro ou a mesma passagem de peões podem funcionar de forma muito diferente, dependendo de quem os utiliza. Pode existir um passeio, mas este pode ser demasiado estreito, irregular ou obstruído para uma pessoa em cadeira de rodas ou que empurra um carrinho de bebé. Um percurso que parece curto e simples para uma pessoa pode, ainda assim, ser inseguro para uma criança ou extenuante para uma pessoa idosa. A mobilidade para todos exige, portanto, que as cidades compreendam tanto as ligações territoriais como as diferentes formas como as pessoas as vivem.

As Redes URBACT de Planeamento de Ação PUMA, Beyond the Urban, ECONNECTING, S.M.ALL e SCHOOLHOODS apresentaram respostas únicas a este desafio. A rede PUMA apoiou cidades de pequena e média dimensão na elaboração de planos de ação integrados para a mobilidade. As redes Beyond the Urban e ECONNECTING analisaram as ligações entre territórios urbanos, periurbanos e rurais. A rede S.M.ALL abordou a mobilidade através da acessibilidade, da inclusão e da experiência quotidiana, enquanto a rede SCHOOLHOODS se centrou nos percursos das crianças para a escola e na sua capacidade de se deslocarem de forma autónoma.

 

A jornada do URBACT em ação: tornar a mudança visível e testável

 

As redes não procuraram uma intervenção única que pudesse ser reproduzida em todo o lado. Em vez disso, os parceiros recorreram aos Grupos Locais URBACT, à cocriação e a testes em pequena escala para compreender quais as mudanças que eram necessárias nos seus próprios contextos. Estas são algumas das ferramentas centrais do Método URBACT, e a sua aparente simplicidade não deve obscurecer a eficácia com que conseguem reunir diferentes perspetivas, testar pressupostos e transformar ambições amplas em ações com base local.

 

Repensar a mobilidade com as redes Beyond the Urban e ECONNECTING

 

Entre os 10 parceiros do Beyond the Urban, Treviso (IT) oferece um exemplo particularmente concreto. A cidade testou a pedonalização da Piazza Duomo durante um dia, permitindo que residentes, empresas e decisores experimentassem uma utilização diferente da praça, inquéritos e observações no local avaliaram o fluxo de pedonal, o tempo de permanência, a segurança, o conforto e a aceitação por parte do público. Em Bram (FR), um “Vélobus” liderado pela comunidade demonstrou como voluntários e escolas podiam integrar a bicicleta no trajeto escolar quotidiano sem esperar por grandes investimentos em infraestruturas.

A rede Beyond the Urban incluiu as cidades de Creacció Agència d’Emprenedoria (ES) (parceiro líder), Santa Maria da Feira (PT), Hradec Kralove (CZ), Machico (PT), Associação de Municípios para o Desenvolvimento Regional de Szabolcs 05 (HU), Tartu (EE), Bram (FR), Bucareste-Ilfov (RO), Treviso (IT) e Kočani (MK).

 

Hradec Kralove (CZ) – Beyond the Urban

 

A rede ECONNECTING explorou uma escala diferente através da ideia do território de 30 minutos. Os seus oito parceiros analisaram os transportes adaptados à procura, os táxis comunitários, a mobilidade partilhada, os centros de mobilidade, as ligações para ciclistas e a informação integrada. A abordagem resultante não procura reproduzir o famoso conceito da cidade de 15 minutos numa região rural; combina, sim, serviços locais acessíveis com ligações fiáveis entre povoações, acesso digital e cooperação entre os diferentes níveis de governo. Em Ormož (SI), por exemplo, o parceiro local testou um serviço de transporte gratuito e flexível em duas rotas, ligando as pessoas das zonas rurais a eventos no centro da cidade. Isto proporcionou uma forma prática de analisar como o transporte a pedido poderia complementar os transportes públicos limitados e melhorar o acesso num território disperso.

 

A rede ECONNECTING incluiu as cidades de Romagna Faentina (IT) (parceiro líder), Razvojno raziskovalni em Ormož (SI), Nagykálló (HU), West Mani (EL), Viseu Dão Lafões (PT), Berane (ME), Distrito Municipal de Ennis (IE) e Tori Vallavalitsus (EE).

 

ECONNECTING

 

Deslocar-se com segurança pelas cidades com as redes S.M.ALL e SCHOOLHOODS

 

Os 9 parceiros da rede S.M.ALL colocaram no centro do planeamento as pessoas que, frequentemente, enfrentam os maiores obstáculos. Em toda a rede, as cidades combinaram alterações físicas com educação, comunicação e reformulação de serviços, seguindo um princípio simples: se funcionar para os mais vulneráveis, funcionará para todos.

Larissa (EL) e Škofja Loka (SI) recorreram a avaliações no terreno e a auditorias de acessibilidade que envolveram pessoas com deficiência, residentes idosos e pais com carrinhos de bebé. Sófia (BG) concentrou-se no transporte especializado e a pedido para pessoas com deficiência, onde o desafio não consistia simplesmente em disponibilizar um veículo, mas sim em coordenar os percursos, os critérios de elegibilidade, os dados e os serviços sociais.

A rede S.M.ALL incluiu as cidades de Ferrara (IT), Associação de Municípios de Fins Específicos Pentágono Urbano (PT), Bucareste (RO), Druskininkai (LT), Estrasburgo (FR), Larissa (EL), Komotini (EL), Sófia (BG) e Škofja Loka (SI).

 

S.M.ALL

 

A rede SCHOOLHOODS propôs-se melhorar a mobilidade escolar através tanto de alterações práticas nas ruas como de um esforço sério para compreender como as crianças as vivenciam. As oito cidades parceiras iniciaram o seu percurso com a realidade quotidiana das famílias urbanas. Os pais podem optar por levar os filhos de carro porque consideram que ir a pé ou de bicicleta para a escola não é seguro. No entanto, quando muitas famílias fazem a mesma escolha, o tráfego adicional, o congestionamento e a circulação de veículos nas proximidades da escola tornam a zona mais difícil e potencialmente mais perigosa para as crianças que se deslocam a pé ou de bicicleta. Isto, por sua vez, reforça a convicção de outros pais de que ir de carro é a opção mais segura e responsável.

Em Brno (CZ), o trabalho centrou-se em duas escolas primárias, a ZŠ Tuháčkova e a ZŠ Krásného, onde Grupos Locais URBACT distintos desenvolveram e testaram medidas que incluíram um corredor pedonal, estacionamento para trotinetas, ruas escolares e um jogo de tabuleiro local chamado «Brno Dragon Game», que incentivava deslocações sustentáveis para a escola. Em Skawina (PL), os workshops «City of Girls» convidaram raparigas com idades entre os 13 e os 18 anos a utilizar o “The Sims 4” como ferramenta participativa, permitindo-lhes conceber os arredores da escola de forma a responder às suas próprias necessidades e perceções de segurança.

A rede SCHOOLHOODS incluiu as cidades de Rethymno (EL) (parceiro líder), Brasov (RO), Brno (CZ), Guía de Isora (ES), Parma (IT), Skawina (PL), Turku (FI) e Zadar (HR).

 

SCHOOLHOODS

 

Ultrapassar os limites do ordenamento do território com a rede PUMA

 

Os nove parceiros da rede PUMA depararam-se com outro problema recorrente: como passar de uma lista de melhorias desejáveis para um programa efetivamente exequível. Algumas cidades parceiras não dispunham de planos de mobilidade integrados antes de aderirem à rede. Por exemplo, Liepāja e Dienvidkurzeme (LV) precisavam de coordenar os objetivos em matéria de transportes, desenvolvimento territorial e clima entre os diferentes departamentos municipais, e a região predominantemente rural de Dienvidkurzeme teve de abordar a questão da mobilidade entre povoações dispersas e coordenar o seu plano com a vizinha Liepāja, o centro funcional para muitas deslocações quotidianas. Em ambos os casos, o processo exigiu cooperação entre os setores do ordenamento do território, gestão rodoviária, transportes públicos, educação, política climática e participação, apesar da capacidade especializada limitada.

Esperava-se que cada parceiro desenvolvesse um Plano de Ação Integrado para a Mobilidade, mas a rede também produziu resultados que não eram tão fáceis de registar num documento final, incluindo novas relações entre municípios e residentes, uma cooperação mais forte entre departamentos e uma maior sensibilização para experiências que anteriormente não eram tidas em conta no planeamento da mobilidade. Como recordou Umberto Amoroso, de Cento (IT), após a primeira reunião do Grupo Local URBACT da cidade com mulheres migrantes: «Foi a primeira vez que uma autoridade pública demonstrou interesse nas suas opiniões sobre a acessibilidade do sistema de mobilidade urbana.» Um encontro deste tipo vai além de fornecer informação para um plano. Pode alterar a forma como as autoridades públicas entendem a participação, cujo conhecimento valorizam, e como abordam decisões futuras.

A rede PUMA incluiu as cidades de Liepaja (LV) (parceiro líder), Dienvidkurzeme (LV), Taurage (LT), Larissa (EL), Zagreb (HR), Gdańsk (PL), Cento (IT), Viladecans (ES) e Nova Gorica (SI).

 

PUMA

 

O que é que as redes produziram em conjunto

 

As ações locais foram apoiadas por produtos destinados a ir além das parcerias iniciais. O Rural Urban Connections Toolkit da rede Beyond the Urban transforma a ideia de «urbano-rural» em orientações práticas para compreender os deslocamentos diários, trabalhar com as comunidades, testar intervenções e integrar projetos-piloto bem-sucedidos nas políticas. O ECONNECTING Manifesto estabelece seis princípios para ligações sustentáveis entre as zonas urbanas e rurais e apresenta a mobilidade moderna e inclusiva como a espinha dorsal da coesão territorial.

O Relatório de Planeamento de Ação Integrada da rede S.M.ALL compara a forma como uma metodologia partilhada foi adaptada em diferentes escalas territoriais e contextos de governação. Este vídeo contém mais informações úteis:

 

 

A rede SCHOOLHOODS produziu mensagens direcionadas a autoridades locais, políticos, professores e pais, a par de estudos de caso de cidades e recomendações sobre formas seguras, ecológicas e agradáveis de se deslocar para a escola. O PUMA Times reúne os nove planos de mobilidade, reflexões dos parceiros e lições práticas sobre governação, financiamento e comunicação.

Estes resultados são importantes porque promovem a cooperação inter-regional, ajudando as cidades a analisar os seus pressupostos, a observar como um método se comporta em diferentes condições e a adaptar o que aprendem, em vez de copiarem uma solução pronta.

Na rede PUMA, Edvinas Benetis, da «Green Region» da Lituânia, resumiu bem esta ideia: «As verdadeiras soluções de mobilidade não são apenas técnicas — são sociais e construídas através da colaboração transfronteiriça.»

 

Quatro lições para a implementação

 

  1. A mobilidade deve ser planeada à escala em que efetivamente ocorre. Algumas ações devem manter-se próximas das comunidades locais, enquanto os transportes públicos, as ligações regionais para ciclistas ou o acesso a serviços podem exigir cooperação para além das fronteiras municipais.

  2. A conceção conjunta com os residentes e as partes interessadas locais pode revelar necessidades que a análise técnica, por si só, pode ignorar e ajudar a moldar ações em torno das experiências quotidianas das pessoas. Todas as cinco redes trabalharam através dos contactos locais do URBACT, mas também demonstraram por que razão as cidades precisam de ir além das pessoas que normalmente participam em reuniões formais. As crianças, os residentes idosos, as pessoas com deficiência e os habitantes de pequenas localidades podem possuir conhecimentos essenciais sobre as barreiras à mobilidade, ao mesmo tempo que têm menos oportunidades de participar em consultas convencionais.

  3. Os projetos-piloto devem ser tratados como ferramentas de aprendizagem, e não como substitutos convenientes para a tomada de decisões. As intervenções temporárias podem revelar como as pessoas reagem e tornar tangível uma proposta abstrata. O seu verdadeiro valor, no entanto, depende da avaliação dos resultados, do acordo sobre as responsabilidades e da articulação das ideias bem-sucedidas com orçamentos, normas e projetos permanentes.

  4. A implementação constitui um desafio de governação. Seja um trajeto mais seguro para a escola, seja a mobilidade urbano-rural, seja qual for o objetivo, um plano urbano deve contar com apoio político, capacidade institucional e pessoas que continuem a assumir a responsabilidade após o término das reuniões do projeto.

 

Dos planos à mudança duradoura: o que acontece depois das redes?

 

A «Mobilidade para Todos» não será alcançada através de um modelo universal, porque as pessoas, os locais e as competências institucionais diferem demasiado. O trabalho destas cinco redes URBACT oferece processos que ajudam as cidades a identificar quem está excluído, a testar o que pode funcionar e a transformar ideias bem-sucedidas de ações temporárias em práticas duradouras.

Dois anos e meio de trabalho conjunto resultaram em planos, ações testadas, novas parcerias e conhecimentos práticos. O trabalho formal pode ter terminado a 31 de dezembro de 2025, mas o valor deste trabalho depende da forma como as cidades o incorporam nas decisões quotidianas, nos orçamentos e nas rotinas institucionais.

 

Explore as cinco Redes URBACT de Planeamento de Ação e os seus resultados finais:

 

PUMA  |  S.M.ALL | ECONNECTING  |  Beyond the Urban |  SCHOOLHOODS | e todas as 30 Redes URBACT de Planeamento de Ação (2023-2025).

Inspire-se em mais ações locais das cidades URBACT, acompanhando a sua participação no URBACT City Festival 2026.

Traduzido e adaptado do original em inglês submetido em 17/09/2026 disponível em Mobility for everyone: what five URBACT Action Planning Networks learned about turning plans into practice

Autora: KarolinaOrcholska

Submitted by on 25/09/2026
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Maria José Efigénio

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