O poder dos dados: os dados sociais podem contribuir para criar cidades melhores?

Edited on 10/08/2026

O que é necessário para que os dados sociais sejam úteis para as cidades? Descubra o novo URBACT Knowledge Hub sobre Gestão de Dados Sociais.

As cidades europeias não têm falta de dados. Hoje em dia, os sensores monitorizam a qualidade do ar em tempo real. Os sistemas administrativos registam quem se candidata a habitação, quem solicita prestações sociais e quem utiliza determinados serviços. Os cidadãos preenchem inquéritos, sinalizam problemas e participam em consultas.

No que diz respeito às políticas sociais, muitas cidades ainda não conseguem responder a perguntas básicas: a quem é que esta política está realmente a chegar? A situação está a melhorar e para quem? A lacuna não tem a ver com a quantidade de dados existentes. Reside na ligação: dados que ficam isolados em diferentes departamentos ou desligados das decisões que deveriam orientar.

O URBACT está a expandir a sua plataforma de conhecimento para dar resposta aos desafios relacionados com a gestão eficaz dos dados sociais. Quer ter uma ideia do tipo de perspetivas dos especialistas e contributos das cidades parceiras que poderá encontrar na nova secção do URBACT Knowledge Hub? Leia o artigo para saber o que são os dados sociais, como podem ser recolhidos e geridos e, por fim, como se pode medir o seu impacto.

 

Começar pelo problema, não pelos dados

 

Os dados sociais nunca se referem apenas às pessoas ou ao seu entorno. Referem-se a ambos: aos indivíduos que vivem numa cidade e às condições físicas e espaciais que os rodeiam, desde a habitação aos espaços verdes e à mobilidade. A maioria das políticas sociais atua sobre ambos os aspetos em simultâneo, o que é precisamente o que torna estes dados tão valiosos, mas este potencial continua a ser, com demasiada frequência, ignorado.

Analisando para a agenda europeia num contexto mais amplo, as metodologias baseadas em dados concretos constituem uma pedra angular das futuras políticas urbanas. A Parceria Cities of Equality procura perceber como dados de melhor qualidade podem revelar desigualdades e acesso desigual aos serviços, enquanto a Nova Carta de Leipzig apela a um desenvolvimento urbano integrado e baseado em dados concretos.

Esta capacidade de utilizar dados recolhidos a partir de diferentes plataformas digitais e sociais pode ser explorada mais aprofundadamente através do «Ciclo de Políticas de Dados Sociais». As suas quatro fases pretendem refletir a forma como as políticas públicas baseadas em dados concretos nas cidades evoluem na prática:

  • Diagnóstico

  • Análise,

  • Decisão

  • Avaliação

URBACT - Série de webinars sobre gestão de dados sociais

 

 

Ter um ponto de partida claro

 

O ciclo começa com o diagnóstico: esclarecer qual é, de facto, o problema que uma cidade está a tentar resolver, antes de decidir o que recolher, onde e como. A tentação é sempre começar ao contrário (criar painéis de controlo ou instalar sensores simplesmente porque a tecnologia está disponível), o que apenas produz dados que ficam lá sem fornecer qualquer informação.

Na prática, isto pode começar com uma cidade a analisar a informação detida por diferentes departamentos e a descobrir que, embora disponha de números detalhados sobre a utilização dos serviços, sabe muito menos sobre as razões pelas quais certos residentes não utilizam esses serviços. Um inquérito convencional pode não colmatar essa lacuna se as pessoas mais afetadas forem também as menos propensas a responder. Em vez disso, a cidade pode precisar de recolher informação através de escolas, organizações comunitárias, eventos locais ou serviços de primeira linha, utilizando formatos mais curtos e acessíveis.

O diagnóstico não se resume, portanto, apenas a identificar dados em falta, mas também a compreender quais as experiências que estão ausentes e a adaptar a forma como os dados são recolhidos.

 

Transformar números em algo que permita agir

 

Assim que os dados certos começam a chegar, o próximo desafio é a análise: transformar contagens e registos brutos em indicadores que uma cidade consiga realmente compreender. Um único número raramente conta toda a história, e nem todos os indicadores são contagens diretas; alguns, como um índice de satisfação ou um índice de vegetação utilizado como indicador da qualidade dos espaços verdes, só fazem sentido se compreendermos o que representam.

Acertar nisto também significa saber quando agir: definir os limiares que transformam um registo passivo num sinal que vale a pena acompanhar. Por exemplo, uma cidade pode criar indicadores, combinando dados sobre saúde, estilo de vida e meio ambiente numa única imagem multidimensional, em vez de monitorizar apenas um único dado. Analisados separadamente, cada dado oferece apenas uma visão parcial. É necessário analisá-los em conjunto. No entanto, nada disto importa se a informação permanecer confinada a uma folha de cálculo. Algumas cidades estão a criar visualizações de dados (por exemplo, mapas, gráficos) que os residentes, e não apenas os responsáveis, podem consultar e explorar por si próprios através de observatórios públicos ou dashboards.

 

Da análise às decisões que chegam às pessoas certas

 

Dispor de evidências não é o mesmo que utilizá-las adequadamente para tomar decisões informadas. As cidades que melhor conseguem fazer isto encaram as políticas como algo a ajustar continuamente, e não como um programa fixo concebido uma vez e deixado a funcionar por si só. Utilizam os dados para identificar o que está a funcionar e ajustar o rumo, em vez de os utilizarem apenas para justificar escolhas já feitas. Na prática, isso significa duas coisas: direcionar as ações exatamente para onde e para quem são mais necessárias, em vez de aplicar o mesmo programa em toda a cidade, e, cada vez mais, tentar antecipar os problemas antes que se agravem, em vez de reagir apenas quando isso acontece.

Para melhorar a tomada de decisões, algumas cidades estão a utilizar ferramentas de IA ou a desenvolver modelos sociais de gémeos digitais para diferentes questões (por exemplo, isolamento, saúde). A IA pode fornecer orientação, mas a decisão cabe sempre aos profissionais humanos da linha da frente, que conhecem os seus bairros.

 

Fechar o ciclo: alimentar novo ciclo

 

O impacto é o que realmente importa: um sentido de pertença mais forte, espaços públicos mais seguros, comunidades mais saudáveis, um bairro que está genuinamente a melhorar, em vez de se limitar a prestar serviços. Mas é também o aspeto mais difícil de medir, porque exige não só saber o que foi concretizado, mas também o que mudou, para quem e se isso teria acontecido de qualquer forma. Isso requer abordagens quantitativas e qualitativas e exige paciência, uma vez que a mudança social demora a refletir-se nos dados.

Uma vez que a mudança social raramente se manifesta de imediato, uma medição consistente é frequentemente mais útil do que uma única avaliação no final de um projeto. A avaliação, portanto, deve ser considerada desde o início, com uma linha de base clara, indicadores significativos e uma compreensão do que deve constituir o sucesso. O seu objetivo não é simplesmente provar que uma intervenção funcionou, mas identificar o que deve ser continuado, alterado ou interrompido. Essas conclusões alimentam então o diagnóstico seguinte, fechando o ciclo e melhorando as políticas que se seguem.

 

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Questões pendentes sobre a gestão eficaz dos dados

 

Nada disto funciona sem que se responda primeiro a um conjunto de questões mais complexas: quem é responsável pelos dados, quem os pode utilizar e quem está protegido por eles. As cidades deparam-se frequentemente com as mesmas quatro falhas.

  • A infraestrutura (seja em sistemas abertos ou protegidos, alojados localmente ou na nuvem) determina se os dados podem circular para onde são necessários ou se ficam presos num sistema do qual a cidade não consegue escapar posteriormente.

  • A capacidade não se resume apenas à formação de analistas; trata-se de saber se os funcionários públicos têm competência para adquirir e supervisionar eles próprios os sistemas de dados, em vez de externalizar o conhecimento juntamente com o trabalho técnico.

  • A qualidade e a ética levantam um risco mais profundo: os dados podem reproduzir as mesmas desigualdades que se pretendem combater, ou reduzir as pessoas a meros pontos de dados, e nada disto funciona sem confiança, uma vez que as comunidades que não compreendem como os seus dados são utilizados simplesmente não se envolverão com eles.

  • A governaça une estes três aspetos: sem uma resposta clara sobre quem decide o que é recolhido, como é utilizado, quem pode aceder aos dados e quem é responsável, a infraestrutura, as competências e os dados de qualidade acabam por ficar dispersos e por não serem utilizados. Nada disto é um problema técnico que possa ser delegado. É um problema político e tem de ser tratado como tal desde o início.

Fazer isto bem significa também reunir as pessoas certas. Um trabalho eficaz com dados reúne os departamentos responsáveis pelas políticas, que definem o problema; as equipas de dados, que garantem a qualidade técnica; e o pessoal da linha da frente, que sabe o que realmente se passa no terreno; além disso, e igualmente importante, os residentes cujas vidas os dados descrevem. Envolvê-los não é uma mera cortesia; a participação determina, em primeiro lugar, quais as realidades que são tidas em conta, e as comunidades que compreendem por que razão os dados estão a ser recolhidos são aquelas que se envolvem com eles de forma honesta.

 

Trabalho (com dados) em curso

 

Tirar partido dos dados sociais não é, em primeiro lugar, uma questão de recursos ou tecnologia específicos. Exige uma mudança na forma como as cidades tratam os dados: não como uma obrigação de prestação de contas, mas como uma ferramenta para compreender a vida das pessoas, tomar melhores decisões e aprender com o que acontece a seguir. Essa mudança acarreta riscos: os dados podem reduzir as pessoas a meros pontos de dados, reproduzir as desigualdades que se pretendem expor ou minar a confiança se forem tratados de forma descuidada. Quando utilizados com a governança e o cuidado adequados, os dados permitem algo mais raro: permitem que uma cidade argumente com base em evidências, em vez de suposições, e seja honesta sobre o que está e o que não está a funcionar.

O novo  URBACT Knowledge Hub sobre Gestão de Dados Sociais é o seu recurso de referência para compreender estes conceitos ao longo de todo o ciclo. Aí, poderá também encontrar Dos dados sociais a cidades melhores, a série de webinars públicos do URBACT que oferece uma visão aprofundada do «Ciclo de Políticas de Dados Sociais», bem como materiais de apoio. Isto é apenas o começo… mais materiais e ferramentas estarão disponíveis em breve.

Quer saber mais sobre as cidades do URBACT que estão a trabalhar na gestão de dados sociais? Consulte as Redes de Planeamento de Ação do URBACT (2022-2025) e os recursos relacionados, incluindo One Health 4 Cities,U.R. Impact, NextGen YouthWork e Cities@Heart.

 

Explore o Knowledge Hub

 

Traduzido e adaptado do original em inglês submetido em 16/07/2026

Autoria: Santamaria-Varas Mar

 

Submitted by on 10/08/2026
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Maria José Efigénio

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