«Sem dados, és apenas mais uma pessoa com uma opinião.»
Esta famosa citação do especialista em estatística W. Edwards Deming tem sido repetida inúmeras vezes nos círculos políticos. No entanto, quem trabalha numa cidade sabe que os dados, por si só, raramente são suficientes.
As cidades nunca tiveram acesso a tanta informação como têm hoje. Podem medir os fluxos de tráfego, monitorizar a qualidade do ar, mapear edifícios devolutos, analisar tendências na área da saúde, recolher o feedback dos cidadãos e recorrer a plataformas digitais que geram dados todos os dias. No entanto, muitas autoridades locais continuam a deparar-se com várias questões: as nossas políticas estão realmente a melhorar a vida das pessoas? Que comunidades estão a ficar para trás? Estamos a investir onde as necessidades são maiores?
O desafio, portanto, já não é apenas recolher dados; é interpretá-los.
Este foi o ponto em comum identificado por quatro Redes URBACT de Planeamento de Ação muito diferentes. As redes Cities@Heart, U.R. Impact, One Health 4 Cities e NextGen YouthWork partiram de prioridades políticas distintas: gestão do centro da cidade, regeneração urbana, saúde e trabalho com jovens. No entanto, à medida que os seus projetos evoluíram, um aspeto tornou-se central: ajudar as cidades a utilizar dados sociais para tomar melhores decisões políticas.
Entre 2023 e 2025, as cidades parceiras exploraram a forma como os dados sociais reúnem perceções, experiências, participação, confiança, bem-estar e qualidade de vida — dimensões que são frequentemente as mais difíceis de medir, mas as mais importantes para moldar melhores locais.
Como recolher os dados certos: O processo começa por compreender quais as informações que são realmente necessárias. Prossegue com a recolha e gestão responsável dos dados, a sua análise em conjunto com as partes interessadas locais, a tradução das evidências em decisões e, por fim, a avaliação da eficácia dessas decisões.
As quatro redes exploraram diferentes aspetos deste ciclo. Algumas cidades questionaram se os dados disponíveis refletiam verdadeiramente a realidade. Outras desenvolveram novas formas de combinar indicadores de saúde e bem-estar. Algumas experimentaram a participação digital para compreender melhor os jovens, enquanto outras trabalharam com as comunidades para definir como deveria ser, na prática, uma regeneração urbana bem-sucedida. Embora tenham abordado o desenvolvimento urbano sob diferentes perspetivas, as quatro Redes URBACT de Planeamento de Ação convergiram gradualmente em torno de uma questão comum: como podem as cidades tirar melhor partido dos dados sociais?
Cities@Heart: Conhecer as pessoas dos lugares
Reunindo 10 parceiros de rede, a Cities@Heart propôs-se a criar centros urbanos mais equilibrados, atrativos e inclusivos. Logo no início da trajetória da rede, os parceiros perceberam que isso exigia olhar para além dos indicadores económicos. O fluxo de pessoas, as vagas ou a atividade comercial revelam apenas uma parte da história. As cidades também precisam de compreender como as pessoas vivem o centro urbano, quem o utiliza, quem se sente excluído e porquê.
Em toda a rede, as cidades experimentaram combinar informação quantitativa com conhecimento local e o envolvimento das partes interessadas. Em Sligo (IE), por exemplo, os dados oficiais sobre ofertas de emprego foram complementados por observações locais e pela colaboração com as empresas, a fim de construir uma compreensão muito mais rica de como o centro da cidade funciona na prática. Em vez de recolher mais dados, a rede demonstrou a importância de recolher os dados certos.
Para as cidades que se questionam por onde começar, o Cities@Heart Playbook: Um Guia de Políticas para Transformar o Centro da Sua Cidade transforma a experiência da rede num guia prático, estruturado em torno de cinco alavancas estratégicas e repleto de ferramentas práticas, indicadores e exemplos de todas as dez cidades parceiras.
A rede Cities@Heart incluiu a Métropole du Grand Paris (FR) (Parceiro Líder), a Associação Metropolitana de Cracóvia (PL), Granada (ES), Osijek (HR), a Associação de Municípios de Fins Específicos Pentágono Urbano (PT), a JZ Socio Celje (SI), Sligo (IE), Cesena (IT), Fleurus (BE) e Lamia (EL).
U.R. Impact: Da avaliação de projetos à avaliação da mudança
Para a U.R. Impact, que reuniu 10 parceiros de rede, os dados sociais tornaram-se a base para uma nova forma de abordar a regeneração urbana. Embora continuasse a questionar se os projetos tinham sido concluídos dentro do prazo e do orçamento, a rede encorajou as cidades a colocarem também uma questão mais ambiciosa: que diferença estão estes projetos a fazer na vida das pessoas?
Trabalhando em conjunto, os parceiros descobriram como o impacto social poderia ser planeado desde o início de uma intervenção através da Teoria da Mudança, de indicadores criados em conjunto e da avaliação participativa. Cinisello Balsamo (IT) ilustra bem esta abordagem. Em vez de definir indicadores internamente, o município envolveu diferentes departamentos municipais e partes interessadas locais na identificação do que deveria ser considerado sucesso, desde uma maior coesão social e participação cívica até um maior bem-estar. O resultado foi não só um quadro de referência para a avaliação, mas também uma linguagem comum em toda a administração local.
Como se traduz esta abordagem na prática? O Catálogo da Exposição U.R. Impact responde através de reflexões de especialistas, histórias das cidades parceiras e nove cartazes ilustrativos da Teoria da Mudança que traçam o percurso desde os desafios locais até ao impacto social significativo.
A rede U.R. Impact incluiu Cinisello Balsamo (IT) (Parceiro Líder), Bielsko-Biala (PL), Bovec (SI), Broumov (CZ), Hannut (BE), Kamëz (AL), Longford (IE), Mértola (PT), Múrcia (ES) e Târgu Frumos (RO).
One Health 4 Cities: ligar os dados sobre saúde às políticas urbanas
Os nove parceiros da rede One Health 4 Cities reuniram municípios que atuam na intersecção entre saúde, ambiente e planeamento urbano. A rede destacou que os dados de saúde já não são relevantes apenas para os serviços de saúde pública; estão a tornar-se um recurso estratégico para a definição de políticas urbanas. As cidades exploraram a forma como os conjuntos de dados existentes, as ferramentas digitais e a colaboração intersetorial podem apoiar as decisões em matéria de bem-estar, prevenção e qualidade de vida.
Kuopio (FI) constitui um exemplo convincente. Ao combinar conjuntos de dados nacionais com painéis interativos, a cidade monitoriza indicadores de bem-estar que informam diretamente as prioridades estratégicas. Os dados não são tratados como um mero exercício de relatório, mas sim como uma ferramenta de gestão quotidiana que ajuda a orientar os investimentos e o planeamento a longo prazo.
Os números, por si só, justificam que se explore o One Health for Cities: The Essential Guidebook for City Makers: 142 dicas práticas, 15 estudos de caso urbanos e um índice com 19 ferramentas mostram como as cidades podem transformar o One Health de uma ideia ambiciosa em uma prática diária de elaboração de políticas.
A rede One Health 4 Cities incluiu Lyon (FR) (Parceiro Líder), Suceava (RO), Eurometropolis Strasbourg (FR), Kuopio (FI), Loulé (PT), Lahti (FI), Benissa (ES), Elefsina (EL) e Munique (DE).
NextGen YouthWork: dar visibilidade às vozes dos jovens através dos dados
Entre os 10 parceiros da rede NextGen YouthWork, a questão voltou a ser diferente: como podem as cidades compreender as realidades dos jovens num mundo cada vez mais digital?
A rede analisou a forma como o trabalho digital com jovens gera formas valiosas de dados sociais, não só as estatísticas, mas também o feedback contínuo, a participação e o diálogo.
Cidades como Oulu (FI) e Klaipėda (LT) demonstraram como a informação recolhida através dos serviços para jovens e do envolvimento digital pode ajudar a adaptar os programas mais rapidamente às necessidades em constante mudança. Em vez de avaliarem as políticas anos mais tarde, os profissionais utilizam os dados como um processo de aprendizagem contínuo que reforça tanto a participação como a conceção dos serviços.
Está à procura de uma forma de entrar no mundo em rápida mudança do trabalho com jovens? O Produto Final da Rede NextGen YouthWork combina perfis de cidades e recomendações políticas com lições práticas, abordagens testadas e vídeos curtos que abrangem o trabalho com jovens digital, híbrido e offline.
O NextGen YouthWork incluiu Eindhoven (NL) (Parceiro Líder), Aarhus (DK), Cartagena (ES), Iași (RO), Klaipėda (LT), Oulu (FI), Perugia (IT), Tetovo (MK), Veszprém (HU) e Viladecans (ES).
Dados sociais: quatro lições para as cidades europeias
Ao analisar as quatro redes, identificam-se várias lições importantes.
Em primeiro lugar, comece pela questão política, e não pelos dados disponíveis. Os dados só se tornam significativos quando ajudam a responder a um desafio real e específico.
Em segundo lugar, crie uma cultura de dados, e não apenas uma base de dados. A tecnologia é importante, mas a colaboração, a confiança e o entendimento comum são ainda mais importantes.
Em terceiro lugar, combine os números com a experiência vivida. Os dados sociais são mais fortes quando os indicadores quantitativos são enriquecidos por perspetivas qualitativas.
Por fim, avalie o impacto para aprender, e não apenas para apresentar relatórios. A avaliação deve apoiar melhores decisões, incentivar a adaptação e reforçar a confiança do público.
Melhores cidades com os dados
Nenhuma cidade tem todas as respostas, mas nas redes URBACT as cidades partilham métodos, questionam pressupostos e aprendem umas com as outras. Neste contexto, através do intercâmbio e da aprendizagem, os dados tornam-se algo muito mais poderoso do que a simples informação. Transformam-se num catalisador para melhores conversas, melhores decisões e, em última análise, cidades melhores.
Quer saber mais? Leia o nosso artigo O poder dos dados: os dados sociais podem contribuir para criar cidades melhores?e consulte o novo URBACT Knowledge Hub sobre Gestão de Dados Sociais. Os recursos aí reunidos, incluindo a série de webinars e exemplos de cidades, podem apoiar os municípios de toda a Europa que desejem reforçar a criação e implementação de políticas baseadas em dados concretos e fazer com que os dados sociais beneficiem as suas comunidades.
Traduzido e adaptado do original em inglês submetido em 06/08/2026
Autor: Liat Rogel