Explorar problemas e visões comuns

Por que razão as lentes bifocais são importantes no início do planeamento de ações.

 

Navegar as fases iniciais do ciclo de planeamento de ações integrado e participativo exige que as cidades recuem e contemplem questões fundamentais que são críticas para dar início a uma jornada. Estas questões centram-se no discernimento da situação atual – onde estamos agora – e na definição do rumo para o futuro – para onde queremos ir? Essencialmente, resume-se a abordar uma questão profunda: porquê e o quê. Quais são as razões da atual situação das cidades e os problemas que pretendem resolver? E, em última análise, é necessário compreender a visão que as partes interessadas pretendem concretizar e as soluções que procuram.

A complexa interação entre o «aqui e agora» e o «lá e depois»

Com base nas conclusões do estudo sobre os Planos de Ação Integrados do URBACT realizado em 2022, tornou-se evidente que os planos eficazes se caracterizam por «uma apresentação clara e concisa das necessidades e do contexto». Esta apresentação serve de base para a tomada de decisões estratégicas, em que o trabalho de fundo que consiste em compreender o contexto, bem como o problema juntamente com as respetivas causas e consequências, se alinha perfeitamente com o futuro previsto. No entanto, importa notar que a ligação entre a definição do problema e a visão está longe de ser direta ou previsível no panorama dinâmico da vida urbana.

 

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Na realidade, os problemas e as visões estão interligados, cruzando-se na complexa teia de dinâmicas de governação verticais e horizontais, problemas intrincados e transições. Além disso, nem todas as visões são geradas localmente, pois há casos em que são criadas para as populações locais, mas não por elas. Espera-se simplesmente que as cidades e as comunidades se adaptem a elas. Por exemplo, vejamos o tema da mobilidade urbana.

As cidades mais pequenas e médias, como é o caso da rede PUMA – Plans for Urban Mobility Actions, podem não ter sistemas de transportes públicos robustos. A população local acaba por depender muito dos automóveis, com recursos limitados para infraestruturas. Apesar disso, as cidades devem harmonizar-se com a visão global do conceito europeu do Plano de Gestão Urbana Sustentável (PGUS) e com o Pacto Ecológico Europeu. Para compensar, as zonas urbanas mais amplas têm de equilibrar bem as respetivas questões locais, examinadas à lupa, com o olhar fixo no horizonte através de lentes bifocais semelhantes a binóculos. Esta abordagem serve como um potente catalisador para todo o processo de planeamento de ações.

Alavancar as ferramentas do URBACT

 

 No âmbito do Conjunto de Ferramentas do URBACT, duas ferramentas específicas, a Árvore de Problemas e o Jornal do Amanhã, foram testados tanto por novatos do URBACT quanto por veteranos com experiência das redes de planeamento de ação recentemente aprovadas. No âmbito da URBACT University 2023 em Malmö (Suécia), de 28 a 30 de agosto, mais de 400 participantes de toda a Europa tiveram a oportunidade de experimentar estas ferramentas no primeiro dia do evento.

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Em primeiro lugar, a Árvore de Problemas, também conhecida como «Árvore de Causas e Efeitos» ou a «Árvore de Questões», consiste numa representação visual que pode ser utilizada para dissecar e compreender problemas complexos de forma sistemática. Fá-lo desconstruindo problemas complexos nos respetivos elementos constituintes. É constituída por duas componentes principais: as «raízes», as causas; e os «ramos», os efeitos ou consequências. Em última análise, o problema manifesta-se no tronco da árvore. Esta ferramenta fragmenta eficazmente a complexidade do problema em subquestões que se podem gerir, oferecendo uma visão das causas e consequências de uma questão específica, avançando, em última análise, para a definição de objetivos estratégicos.

«As ferramentas ativam um vasto leque de competências e mentalidades necessárias para os processos de planeamento participativo», recorda Claus Kӧllinger, Perito Líder da rede SCHOOLHOODS, que aborda a transição para a mobilidade urbana verde colocando as escolas no centro da cidade de 15 minutos. Estas competências incluem o conhecimento analítico, incluindo o pensamento crítico, a comunicação e a empatia. Juntamente com o pensamento estratégico e sistémico, a imaginação e a criatividade, enquanto ferramentas, reforçam o trabalho colaborativo e a gestão de conflitos.

No contexto da cooperação interregional, a Árvore de Problemas pode também ser adaptada a diferentes realidades, tal como proposto pela rede URBACT S.M.ALL – Sharing Urban Solutions towards Sustainable Mobility for All. Esta rede é composta por um diversificado conjunto de cidades, das grandes metrópoles às cidades de média e pequena dimensão, passando por um agregado de municípios.

«É essencial reconhecer que as dimensões e as posições das cidades dentro de áreas funcionais mais amplas alteram significativamente a escala, a incidência e a complexidade dos desafios da mobilidade urbana», explica Pietro Elisei, Perito Líder da S.M.ALL. «Por isso, decidimos criar duas Árvores de Problemas diferentes», acrescenta. Esta escolha reflete a necessidade de dar resposta aos diferentes problemas de mobilidade com que se deparam as grandes e as pequenas cidades.

Embora o desafio global possa incidir sobre a centralidade dos automóveis, a dimensão da cidade influencia os problemas e exigências específicos relacionados com a mobilidade urbana e periurbana. As grandes cidades enfrentam frequentemente disparidades no acesso aos transportes, beneficiando certos bairros de um maior acesso e acessibilidade aos transportes públicos e às opções de mobilidade.

Em contrapartida, as cidades mais pequenas enfrentam a escassez de transportes públicos e orçamentos limitados para infraestruturas e para a manutenção, o que representa um desafio para a resolução de questões como a qualidade das estradas ou a criação de ciclovias seguras e a expansão de soluções de transportes públicos, em especial para a mobilidade na cidade e entre cidades. Embora as duas Árvores de Problemas da rede S.M.ALL tenham pontos em comum no que diz respeito às causas profundas e aos impactos e consequências subsequentes, o contexto e as questões principais apresentam diferenças inequívocas.

A metáfora visual da árvore surge, portanto, como uma excelente ferramenta para envolver as partes interessadas, promovendo a comunicação e a colaboração entre os funcionários da cidade, os membros da comunidade e outras partes interessadas relevantes. A respetiva estrutura ajuda a compreender a intrincada relação entre as várias vertentes de uma questão, permitindo assim o desenvolvimento de estratégias mais eficazes e abrangentes adaptadas aos contextos locais.

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Ver o invisível?

 

O Jornal do Amanhã é uma técnica de visão de futuro que tira partido da criatividade e das perspetivas de futuro. Esta ferramenta pode ser aplicada em vários domínios do planeamento urbano e não só, estimulando a inovação, a empatia e a capacidade de criar cenários. O principal objetivo desta ferramenta é criar uma narrativa vívida e apelativa, imaginando a realização bem-sucedida de um determinado projeto, iniciativa ou visão como se já se tivesse materializado. «Esta abordagem incentiva os indivíduos ou grupos locais com várias partes interessadas a mergulharem num cenário futuro em que a mudança idealizada se torna realidade», afirma Karolina Orcholska, Perita Líder da PUMA, fazendo referência aos Grupos Locais do URBACT.

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Uma manchete do jornal 2030 da PUMA, centrado nas cidades de média e pequena dimensão que se esforçam por criar Planos de Mobilidade Urbana Sustentável para reduzir as emissões de carbono, refere «Andar pela nossa cidade nunca foi tão divertido!». No fundo, o adjetivo «divertido» resume a recuperação do bem-estar coletivo.

 

O Jornal do Amanhã encoraja as pessoas a pensarem também no que os cidadãos dizem. Vejamos a Sónia, que agora desfruta do seu trajeto escolar de autocarro com os amigos, ou a Adele, a mãe da Sónia, que aprecia o tempo extra que tem para si própria. Refletindo sobre a transformação, Karolina, de 85 anos, observa: «Costumávamos dançar nos funerais, agora dançamos no festival da cidade, nas ruas!». As manchetes e citações ilustram de forma vívida como a redução do número de automóveis, a criação de alternativas de transportes sustentáveis, a redução da poluição e as mudanças nos comportamentos de mobilidade tiveram um impacto positivo na saúde mental e física e na segurança de vários segmentos da população.

 

A força do Jornal do Amanhã reside na brevidade da execução em comparação com outras técnicas de visão e planeamento de cenários, tais como workshops, construção de cenários e métodos de previsão. Capta todos os elementos essenciais – o impacto nas pessoas, a capacidade de síntese, a capacidade empática e a visualização da mudança – necessários para as fases iniciais do processo planeamento/ação. «Esta ferramenta pode incentivar o Grupo Local do URBACT a compor coletivamente uma visão partilhada da transformação desejada», recomenda Karolina Orcholska.

Passar do presente para o futuro e vice-versa

 

A capacidade de mudar a ênfase dos desafios do «aqui e agora» para a visão de um futuro transformado serve de estímulo para a abordagem integrada e participativa do URBACT. Não só desencadeia uma introspeção no que diz respeito à adequação da identificação do problema, mas também inicia um processo de backcasting. Cada vez mais integradas no desenvolvimento urbano sustentável, as técnicas de backcasting começam com uma visão do futuro e trabalham no sentido inverso, delineando sistematicamente as condições, etapas, inovações, práticas e pormenores de conceção e planeamento de políticas essenciais para a concretização dos objetivos e ambições de uma cidade a longo prazo. Este exercício foi realizado com as ferramentas do URBACT utilizadas no último dia do evento, em especial o Integrated Action Plan Canvas.

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Ter em conta a dimensão humana

 

As Árvores de Problemas e os Jornais do Amanhã podem desencadear o processo de planeamento de ações, representando desafios e abordagens abrangentes para o desenvolvimento urbano sustentável numa época marcada por transições marcantes. Por outras palavras, marcam as etapas iniciais e finais provisórias de todo o percurso, que requerem uma revisão e ajustes contínuos da visão e dos objetivos globais ao longo do tempo.

Ao conceber soluções e estratégias integradas e sustentáveis, a dimensão humana assume um papel central, englobando a diversidade, as competências, a cultura e as perspetivas. Logo nas fases iniciais, as partes interessadas e os esforços de colaboração são as pedras angulares do sucesso.

A forma como as redes e as cidades conseguem envolver, integrar e potenciar os pontos fortes das respetivas partes interessadas influencia significativamente os resultados. Esta é a ênfase e o propósito das ferramentas e atividades do segundo dia da Universidade.

 

Com base na Universidade URBACT, este artigo mostra como o método e as ferramentas do URBACT podem ajudar as cidades a identificar problemas e a visualizar ambições para iniciar qualquer processo de planeamento de ações.

 

Submetido em Inglês por Sandra Rainero em 14/09/2023

Submitted by Maria José Efigénio on 10/10/2023
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Maria José Efigénio

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